22/01/2026

Crítica | Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno

Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno, chega aos cinemas em um momento curioso para adaptações de videogames. Enquanto o streaming parece ter encontrado um caminho mais consistente para traduzir jogos em narrativas audiovisuais eficazes, o cinema ainda caminha com cautela nesse território. Nesse contexto, o filme dirigido por Christophe Gans carrega expectativas relativamente modestas. Não precisa reinventar o gênero nem elevar o status da franquia, apenas evitar o fracasso retumbante de “Silent Hill: Revelation”. Nesse aspecto, o longa cumpre sua missão básica, embora raramente vá além disso.

Diferente dos filmes anteriores, que misturavam elementos de vários jogos da série, “Regresso para o Inferno” assume de forma clara sua inspiração em Silent Hill 2, talvez o capítulo mais reverenciado da franquia. A decisão de adaptar quase diretamente essa história dá ao filme uma base narrativa sólida, mas também o aprisiona a comparações inevitáveis. Ao optar por não dialogar com a mitologia construída nos filmes anteriores e apresentar uma trama independente, Gans aposta na força emocional da jornada de James Sunderland, um homem comum consumido pelo luto e atraído de volta a Silent Hill por uma carta impossível enviada por sua amada falecida. 

Jeremy Irvine interpreta James de maneira até que competente, transmitindo fragilidade e muita confusão, mas o roteiro raramente lhe oferece espaço para algo além da função mecânica de atravessar corredores, reagir a horrores e repetir nomes em desespero. Apenas nos momentos finais o personagem ganha um arco emocional mais consistente, o que evidencia um dos grandes problemas do filme: a dificuldade de condensar uma experiência essencialmente interativa em uma narrativa linear de pouco mais de cem minutos. Personagens secundários surgem e desaparecem rapidamente, reduzidos a engrenagens narrativas sem densidade dramática, o que enfraquece o impacto psicológico que a história poderia alcançar.

Visualmente, o filme oscila. O design das criaturas continua eficaz e perturbador, mantendo o imaginário icônico da série, com destaque inevitável para Pyramid Head e as enfermeiras grotescas. No entanto, as limitações orçamentárias ficam evidentes em diversos momentos, especialmente nas cenas que recorrem de forma pouco convincente a cenários digitais. Em comparação com o recente remake de Silent Hill 2, o filme perde em coesão estética e refinamento visual, tornando-se paradoxalmente menos imersivo do que o próprio jogo que o inspirou.

A atmosfera sonora, por outro lado, é um dos pontos mais sólidos da produção. A participação de Akira Yamaoka garante uma continuidade sensorial importante com o universo da série, ajudando a sustentar o clima opressivo mesmo quando a encenação falha em provocar verdadeiro terror. Ainda assim, sem os elementos centrais da jogabilidade, como a resolução de quebra-cabeças e a exploração tensa e gradual, o filme se limita a acompanhar James em uma sucessão de encontros estranhos e flashbacks explicativos que diluem a sensação de ameaça constante. 

É justamente nos flashbacks que o longa tenta se diferenciar do material original. Ao aprofundar o relacionamento entre James e Mary, o roteiro busca oferecer maior complexidade emocional e moral aos personagens. No entanto, essas adições soam forçadas e, em alguns casos, contradizem aspectos fundamentais da história que tornaram Silent Hill 2 tão marcante. A tentativa de tornar a narrativa mais explícita acaba enfraquecendo o simbolismo e a ambiguidade que eram centrais ao impacto psicológico do jogo, além de introduzir elementos que não encontram resolução satisfatória até o desfecho. 

O resultado é um filme que parece constantemente à deriva, preso entre a fidelidade excessiva e a liberdade criativa mal aproveitada. Gans demonstra apreço genuíno pelo universo de Silent Hill, mas ainda enfrenta dificuldades para traduzir a lógica fragmentada e subjetiva do jogo em uma linguagem cinematográfica verdadeiramente eficaz. James, como protagonista, é mais curioso do que assustado, o que compromete a tensão e transforma sua jornada em uma sequência de deslocamentos por cenários visualmente menos interessantes e dramaticamente vazios. 

Por fim, trata-se de um retorno marcado mais pela insistência e pela nostalgia do que pela real necessidade artística, um filme que existe porque alguém ainda acredita que há algo a ser encontrado nas cinzas de Silent Hill, mesmo que a resposta continue escapando a cada nova tentativa.

13/01/2026

CRÍTICA | MARTY SUPREME


Marty Supreme é um filme que já nasce inquieto, decidido a desestabilizar o espectador desde os primeiros minutos. Ambientado nos anos 50, mas filmado com a pulsação nervosa do cinema autoral dos anos 70 e embalado por uma trilha sonora anacrônica e impecável dos anos 80, o longa de Josh Safdie cria um deslocamento temporal deliberado que funciona como espelho psicológico de seu protagonista. Nada está exatamente no lugar certo, nem a época, nem o tom, nem o próprio Marty Mauser, um homem que vive como se estivesse sempre adiantado demais para o mundo ao seu redor. 

Livremente inspirado em uma figura real do tênis de mesa, Marty é interpretado por Timothée Chalamet na atuação mais ousada e marcante de sua carreira. O ator encarna um campeão autoproclamado de pingue-pongue que se recusa a aceitar os limites impostos pela realidade. Trabalhando em uma sapataria no Lower East Side, cercado por dívidas, expectativas frustradas e relações instáveis, Marty acredita cegamente que nasceu para algo maior. Essa fé absoluta em si mesmo, mais do que seu talento esportivo, é o verdadeiro motor do filme. Safdie constrói um personagem que confunde confiança com direito adquirido e ambição com licença moral para ultrapassar qualquer fronteira.

A narrativa acompanha a escalada caótica de Marty em direção a um reconhecimento que parece sempre escapar por entre seus dedos. Cada tentativa de se afirmar resulta em consequências maiores, mais perigosas e mais moralmente comprometedoras. O filme transforma pequenas infrações em crimes graves com uma fluidez perturbadora, como se a lógica interna de Marty justificasse qualquer ato desde que o objetivo final seja a vitória. Safdie não suaviza esse processo nem oferece julgamentos fáceis, colocando o espectador em uma posição desconfortável, entre o fascínio e a repulsa.

Visualmente, “Marty Supreme” é um turbilhão. A fotografia de Darius Khondji imprime uma energia quase claustrofóbica, com enquadramentos inquietos e uma câmera que parece lutar para acompanhar o protagonista. A edição acelerada e precisa reforça a sensação de urgência constante, enquanto a trilha sonora de Daniel Lopatin, somada às escolhas musicais inesperadas, transforma o som em um elemento narrativo ativo. O uso de canções dos anos 80 em um contexto histórico incompatível não busca realismo, mas sim traduzir o estado mental de Marty, um sujeito que vive fora de sintonia com o tempo em que nasceu.

O elenco coadjuvante funciona como um contraponto essencial à voracidade do protagonista. Odessa A’zion confere complexidade a Rachel, evitando o estereótipo da companheira submissa e revelando uma mulher que compreende Marty talvez melhor do que ele próprio. Gwyneth Paltrow, como a estrela decadente Kay Stone, foge do clichê da celebridade em declínio e constrói uma personagem que também busca validação, ainda que em um registro mais silencioso e melancólico. Essas figuras femininas não existem apenas como satélites do ego masculino, mas como forças que expõem suas fragilidades e limites.

Um dos aspectos mais provocadores do filme é o debate em torno da simpatia do protagonista. Marty Mauser é arrogante, impulsivo, irresponsável e, em muitos momentos, moralmente indefensável. Ainda assim, o carisma de Chalamet e a energia do filme convidam o público a acompanhá-lo por mais de duas horas sem oferecer um conforto moral claro. Safdie parece interessado justamente nessa fricção, questionando a expectativa de que um personagem central precise ser admirável ou redimível. A inquietação gerada por Marty diz menos sobre o personagem em si e mais sobre nossa relação com o cinema e com as estrelas que o habitam.

Por trás do retrato individual, “Marty Supreme” também funciona como uma alegoria da mentalidade americana do pós-guerra, marcada por ambição desmedida, fé cega no sucesso e uma recusa sistemática em reconhecer limites. O pingue-pongue, esporte tratado como irrelevante pelos outros personagens, torna-se um símbolo perfeito dessa obsessão, um campo onde Marty projeta seu desejo de dominação global. Ele não quer apenas vencer, quer ser incontestável, reconhecido, temido e lembrado.

Por fim, “Marty Supreme” não oferece conforto nem lições fáceis. É um filme exaustivo, estimulante e, por vezes, profundamente irritante, assim como seu protagonista. Josh Safdie entrega uma obra que se recusa à homogeneização do cinema contemporâneo, apostando em um personagem desagradável, mas hipnotizante, para refletir sobre ego, poder e identidade. Gostar de Marty não é obrigatório, mas ignorá-lo é impossível. É justamente nessa tensão que o filme encontra sua força e sua relevância.

10/01/2026

CRÍTICA | O BEIJO DA MULHER ARANHA


O Beijo da Mulher Aranha chega aos cinemas em um momento particularmente simbólico, reafirmando a força do escapismo como estratégia de sobrevivência emocional e política. A nova adaptação dirigida por Bill Condon revisita o romance de Manuel Puig com a consciência de que esta é uma história que nunca deixou de dialogar com tempos sombrios. Ao situar a narrativa na Argentina de 1983, em plena ressaca da Guerra Suja, o filme articula repressão, desejo e fantasia como elementos indissociáveis, construindo um contraste constante entre a brutalidade do mundo real e o poder sedutor da imaginação.

Confinados em uma cela, Valentín, um militante político endurecido pela tortura, e Luis Molina, preso por sua homossexualidade, representam visões opostas de enfrentamento da violência institucional. Enquanto Valentín se ancora na resistência ideológica, Molina busca refúgio nos filmes clássicos que narra com minúcia e paixão. A partir dessas histórias, especialmente do musical fictício protagonizado por Ingrid Luna, o filme estabelece sua principal dinâmica narrativa, alternando entre o espaço opressivo da prisão e sequências fantasiosas que evocam o brilho dos musicais clássicos de Hollywood. Essa estrutura reafirma a arte como abrigo simbólico, mas também como ferramenta de elaboração do desejo e da identidade.

Bill Condon demonstra domínio absoluto da linguagem do musical cinematográfico, conduzindo o espectador com segurança entre o real e o imaginado. As sequências musicais são exuberantes, cuidadosamente coreografadas e visualmente saturadas, funcionando como verdadeiras explosões sensoriais em contraste com a paleta fria e claustrofóbica da prisão. O diretor transforma essas passagens em declarações explícitas sobre o poder da fantasia, sem nunca perder de vista a violência que as motiva. Ainda assim, essa escolha também suaviza parte do peso histórico do contexto político, tornando a repressão menos áspera do que em versões anteriores da história. 

Jennifer Lopez assume um papel central ao interpretar Ingrid Luna e suas variações simbólicas, incorporando glamour, perigo e sedução com sua evidente entrega . Sua presença marcante sustenta boa parte do fascínio visual do filme e materializa o ideal de feminilidade que Molina admira e deseja. Lopez se move com segurança entre dança, canto e atuação, oferecendo uma performance que dialoga com o exagero consciente do gênero musical e com a dimensão alegórica da personagem. Diego Luna, por sua vez, constrói um Valentín contido e progressivamente vulnerável, permitindo que a rigidez ideológica do personagem se fragmente diante da intimidade forçada da convivência.

A grande revelação do filme, no entanto, está na atuação de Tonatiuh como Molina. O ator imprime leveza, humor e dor a um personagem que poderia facilmente resvalar na caricatura. Sua performance sustenta a ambiguidade central da obra, transitando entre fantasia e realidade, manipulação e afeto, sobrevivência e entrega emocional. Molina emerge como o verdadeiro coração do filme, não apenas como mediador do escapismo, mas como figura que questiona normas de gênero, desejo e heroísmo.

Apesar do brilho visual e do apelo emocional, “O Beijo da Mulher Aranha” não é isento de desequilíbrios. Algumas canções carecem de força melódica e impacto duradouro, funcionando mais como apoio estético do que como motor narrativo. Além disso, o filme hesita em aprofundar plenamente a violência política que o cerca, optando por uma abordagem mais estilizada e menos confrontacional. Essa escolha pode diminuir a contundência do drama, especialmente para quem conhece a dureza histórica do período retratado.

Ainda assim, o filme se sustenta como uma experiência singular, que abraça o musical, o melodrama e a nostalgia sem constrangimento. Ao revisitar uma história marcada por múltiplas adaptações, esta versão encontra sua identidade ao enfatizar a fantasia como forma de resistência íntima. “O Beijo da Mulher Aranha” reafirma que, mesmo em contextos de opressão extrema de uma ditadura, a imaginação permanece um território de liberdade possível. Em tempos de incerteza, o filme surge como um lembrete de que a arte, ainda que exagerada ou imperfeita, continua sendo um dos gestos mais potentes de sobrevivência.

01/01/2026

Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, dirigido por Chloé Zhao, confirma a vocação da cineasta para transformar o cotidiano em experiência sensorial e espiritual. Assim como em seus trabalhos anteriores, Zhao encontra no contato com a natureza uma via para acessar emoções profundas, fazendo com que o simples gesto humano se torne carregado de significado. Neste filme, essa sensibilidade é aplicada a uma das perdas mais dolorosas possíveis, a morte de um filho, e ao modo como essa ausência reverbera na vida, no amor e na criação artística de William Shakespeare e, sobretudo, de sua esposa Agnes. 

Desde os primeiros minutos, o longa se impõe menos como uma narrativa tradicional e mais como uma vivência sensorial. A fotografia de Lukasz Zal, aliada à trilha de Max Richter e ao desenho de som de Johnnie Burn, constrói um universo florestal denso, quase hipnótico, onde o natural e o sobrenatural parecem coexistir sem fronteiras claras. É nesse espaço que Agnes surge como figura central, profundamente conectada à terra, às árvores e aos ciclos da vida. Jessie Buckley entrega uma atuação de intensidade impressionante, criando uma personagem que parece emanar energia vital e espiritualidade, como se fosse parte orgânica da paisagem que a cerca. 

A relação entre Agnes e Will, interpretado por Paul Mescal, é apresentada com leveza e intimidade, marcada por brincadeiras, cumplicidade e uma liberdade afetiva que se destaca no contexto histórico retratado. A construção dessa família, com a chegada dos filhos Susanna e dos gêmeos Hamnet e Judith, ocupa boa parte do filme e revela o interesse de Zhao pelo ordinário, pelos pequenos rituais da vida doméstica. Esses momentos, curiosamente, são mais atraentes e emocionalmente eficazes do que a tragédia anunciada, pois criam um vínculo genuíno entre espectador e personagens.

Quando a morte de Hamnet acontece, o filme abandona qualquer sutileza e mergulha de forma frontal no luto. A dor vivida por Agnes e Will é encenada com intensidade extrema, quase sufocante, e Zhao escolhe permanecer nesse sofrimento por um tempo prolongado. Embora seja impossível negar a força das atuações, especialmente a de Buckley, há momentos em que essa insistência beira o excesso e rompe a imersão, transformando a experiência em algo próximo do voyeurismo emocional. A intenção é clara, mostrar que a perda de um filho é uma ferida irreparável, mas a forma escolhida nem sempre encontra o equilíbrio entre impacto e sensibilidade. 

O elo entre a morte de Hamnet e a criação de Hamlet é o eixo conceitual do filme, sugerindo a arte como espaço de elaboração do luto. Em alguns momentos, essa conexão surge de maneira poderosa, sobretudo na encenação da peça, que oferece um dos pontos altos do longa. A escolha de Noah Jupe para interpretar Hamlet estabelece um diálogo simbólico com o filho perdido, reforçando a ideia do que poderia ter sido. Há imagens de grande força poética nessa sequência, incluindo uma tomada aérea que sintetiza o poder transformador do teatro e ecoa visualmente a presença de Agnes na floresta no início do filme. 

Ainda assim, nem todas as soluções são igualmente bem-sucedidas. Certas referências diretas à obra de Shakespeare soam óbvias demais, como se o filme, por vezes, desconfiasse da capacidade do espectador de estabelecer suas próprias conexões. Da mesma forma, o uso recorrente de uma trilha musical já amplamente associada a outros dramas acaba enfraquecendo o impacto emocional em momentos-chave, quebrando a singularidade da experiência. 


Ao adaptar o romance de Maggie O’Farrell, o filme preserva a centralidade de Agnes como coração da narrativa, deslocando Shakespeare para uma posição quase periférica. Essa escolha é acertada e coerente, pois transforma a história em um retrato universal do luto materno e da tentativa de seguir vivendo após uma perda irreparável. A ausência quase total do contexto mais amplo da peste, embora compreensível do ponto de vista narrativo, também esvazia um pouco o diálogo histórico que poderia enriquecer ainda mais o filme, especialmente para um público contemporâneo marcado por experiências coletivas de perda. 

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é, acima de tudo, um filme sobre dor, memória e criação. Nem sempre encontra o tom ideal e, em alguns momentos, cede ao sentimentalismo excessivo, mas ainda assim carrega uma beleza genuína e imagens de forte poder simbólico. Sustentado por uma atuação extraordinária de Jessie Buckley e pela sensibilidade estética de Chloé Zhao, o filme propõe que a arte não nasce apenas da genialidade, mas também da ausência, do silêncio e da tentativa humana de dar sentido ao que parece insuportável. É uma obra imperfeita, mas profundamente honesta em sua busca por compreender como atravessar a floresta escura do luto.

Crítica | A Empregada

A Empregada confirma que ainda há enorme apetite do público por thrillers psicológicos construídos a partir de reviravoltas constantes, exagero calculado e personagens femininas em permanente estado de confronto. A adaptação do best-seller de Freida McFadden, dirigida por Paul Feig, assume desde o início que não pretende ser um suspense contido ou realista, mas sim um melodrama acelerado, quase operístico, que bebe diretamente da fonte dos thrillers femininos dos anos 90 e do cinema de histeria elegante que marcou clássicos como “O Que Aconteceu com Baby Jane?” e “A Mão que Balança o Berço”. 

A narrativa acompanha Millie Calloway, vivida por Sydney Sweeney, uma jovem desesperada por recomeçar a vida após um passado traumático e uma passagem pela prisão. A oportunidade surge quando ela é contratada como empregada doméstica para trabalhar na mansão isolada de Nina Winchester e seu marido Andrew. O que inicialmente parece um emprego salvador rapidamente se transforma em um pesadelo psicológico, à medida que Nina, interpretada por Amanda Seyfried, revela um comportamento instável, controlador e cada vez mais perturbador. A inversão do clichê é imediata, pois não é a funcionária que aparenta ser a ameaça, mas a patroa, embora o filme faça questão de nunca permitir que o espectador se acomode nessa leitura.

O grande trunfo de “A Empregada” está justamente em sua recusa em estabilizar os papéis morais. Feig e a roteirista Rebecca Sonnenshine estruturam a trama como um jogo de espelhos, no qual cada revelação reposiciona o olhar do público e redefine as alianças emocionais. Todos os personagens carregam segredos, e o filme se alimenta da sensação constante de que aquilo que se vê nunca é a história completa. Essa sucessão de reviravoltas beira o absurdo em diversos momentos, mas essa é uma escolha consciente, que transforma o longa em uma experiência vertiginosa e assumidamente exagerada.

Visualmente, o filme explora com ironia o luxo opulento da mansão dos Winchester, um espaço que parece saído de um catálogo de decoração sofisticada, mas que esconde um núcleo de desordem e violência emocional. A estética remete ao universo confortável e ensolarado de produções ao estilo Nancy Meyers, porém contaminado por uma atmosfera de ameaça permanente. Essa contradição entre beleza e toxicidade reforça o caráter quase satírico do filme, que flerta o tempo todo com o ridículo sem nunca abandonar completamente o suspense. 

As atuações são fundamentais para sustentar esse equilíbrio delicado entre tensão e entretenimento “trash”. Amanda Seyfried se entrega a uma composição exagerada e intensa, explorando ao máximo a instabilidade de Nina e roubando a cena sempre que surge. Sua atuação é deliberadamente excessiva, quase caricatural, mas perfeitamente alinhada ao tom do filme. Sydney Sweeney, por sua vez, constrói uma Millie mais contida no início, observadora e defensiva, permitindo que sua personagem cresça à medida que a trama exige reações mais extremas. Brandon Sklenar, como Andrew, ocupa uma posição ambígua que só ganha real complexidade conforme a narrativa avança, funcionando como mais uma peça no jogo de manipulações que estrutura o filme.

O filme “A Empregada” não busca sutileza nem profundidade psicológica no sentido clássico. Seu prazer está na audácia, no choque e na constante sensação de instabilidade. É um filme que sabe que está exagerando e faz disso sua maior virtude, convidando o espectador a simplesmente se deixar levar pela sucessão de eventos improváveis e pelo prazer quase culposo de assistir a um suspense que se reinventa a cada nova virada. Ao final, pode não deixar reflexões duradouras, mas entrega exatamente aquilo que promete: um espetáculo escandalosamente divertido, consciente de sua própria história e orgulhoso de ocupar esse espaço no cinema contemporâneo.