08/04/2026

Crítica | Os Estranhos - Capítulo Final

Encerrar uma trilogia já problemática é sempre um desafio, mas “Os Estranhos - Capítulo Final” parece mais interessado em confirmar os erros acumulados do que em oferecer qualquer tipo de redenção. Sob a direção de Renny Harlin, o projeto que nasceu como uma releitura do original de Bryan Bertino termina como uma experiência fragmentada, cuja própria existência jamais se justifica. A ideia de transformar uma estrutura clássica de três atos em três filmes distintos revela-se aqui não apenas equivocada, mas sintoma de uma incompreensão profunda sobre o que tornava o material original tão perturbador.

Há, de fato, vestígios de um filme potencialmente interessante soterrados sob essa abordagem. Se condensada, a narrativa poderia funcionar como um único longa coeso, acompanhando a progressão da protagonista de vítima a algo mais ambíguo. No entanto, ao se dividir artificialmente, a trilogia dilui qualquer impacto dramático. O primeiro capítulo refazia sem brilho o suspense claustrofóbico do original, enquanto os seguintes tentavam expandir um universo que jamais precisou de explicações. O resultado é uma perda completa da essência que fazia da ameaça algo inquietante: a aleatoriedade.

Neste capítulo final, acompanhamos Maya, vivida por Madelaine Petsch, em fuga após os eventos anteriores, apenas para ser novamente capturada por Gregory, interpretado por Gabriel Basso, cuja ligação com a cidade e com o xerife vivido por Richard Brake reforça uma das poucas ideias interessantes do filme. A noção de uma comunidade que tolera assassinos desde que suas vítimas sejam forasteiras carrega um potencial temático perturbador, mas é explorada de forma superficial e quase protocolar. O que poderia ser uma crítica social ou um estudo sobre moralidade coletiva transforma-se apenas em pano de fundo mal desenvolvido. 



A tentativa de inserir uma dinâmica psicológica mais complexa, ao sugerir que Maya poderia ser moldada para se tornar parte do ciclo de violência, talvez seja o elemento mais promissor da narrativa. Ainda assim, falta coragem para levar essa ideia às últimas consequências. O roteiro recua sempre que se aproxima de qualquer ambiguidade mais provocativa, preferindo seguir caminhos previsíveis e dramaticamente inócuos. A transformação da protagonista nunca se concretiza, e o que resta é uma personagem esvaziada, quase passiva diante dos acontecimentos (principalmente no que se refere a sua irmã). 

Curiosamente, Madelaine Petsch se mantém como o principal ponto de sustentação do filme, mesmo quando o roteiro a abandona. Sua presença transmite resquícios de humanidade em meio a uma narrativa que parece desinteressada em desenvolver emoções reais. Ainda assim, até sua performance acaba limitada por uma construção dramática que a reduz a olhares vazios e reações mínimas, como se o próprio filme tivesse desistido de si mesmo. 

Visualmente, Renny Harlin demonstra muita competência, compondo algumas cenas que sugerem uma atmosfera mais inquietante. No entanto, esses momentos são isolados e incapazes de sustentar o conjunto. A estética nunca encontra uma identidade própria, oscilando entre o genérico e o funcional, sem jamais atingir a força necessária para compensar as fragilidades narrativas. 

O aspecto mais surpreendente, porém, é a ausência quase total de tensão. Um conceito que nasceu do medo do imprevisível é transformado em uma sequência de eventos mecânicos, previsíveis e emocionalmente inertes. Mesmo com um número elevado de mortes, falta impacto, falta urgência, falta envolvimento. O terror aqui não assusta, apenas acontece, exceto nos poucos jumpscare.

Os Estranhos - Capítulo Final, se consolida como o desfecho de uma trilogia que nunca encontrou razão para existir. A expansão de um universo que funcionava justamente por sua simplicidade revela-se um erro fundamental. Quanto mais explicações são adicionadas, menos interessante a história se torna. O que poderia ter sido um thriller enxuto e perturbador transforma-se em um exercício prolongado de redundância e desgaste.

Resta a sensação de um projeto esgotado antes mesmo de começar, um filme que não apenas falha em encerrar sua própria narrativa de forma satisfatória, mas que também evidencia o vazio criativo que permeou toda a trilogia. Não é apenas um final fraco, é a confirmação de uma ideia que jamais deveria ter sido levada adiante. 

Crítica | O Drama

“O Drama” é o tipo de filme que se apresenta como uma provocação sofisticada, mas que encontra suas maiores forças justamente quando abraça o desconforto mais cru e menos elaborado. Dirigido por Kristoffer Borgli, o longa parte de uma premissa sedutora e inquietante, transformando o território aparentemente leve da comédia romântica em um campo minado psicológico, onde segredos íntimos têm o poder de corroer qualquer ideal de amor perfeito. A relação entre Charlie, vivido por Robert Pattinson, e Emma, interpretada por Zendaya, nasce envolta em charme e acaso, mas desde o início carrega um ruído estranho, quase imperceptível, que anuncia o colapso inevitável.

Borgli demonstra habilidade ao manipular linguagem e atmosfera, utilizando recursos sonoros e visuais que deslocam o espectador do conforto típico das narrativas românticas. O encontro inicial do casal, que poderia ser apenas mais um clichê encantador, é filmado como um episódio de tensão latente, sugerindo que algo está profundamente desalinhado por trás da superfície. Essa escolha estética aproxima o filme de tradições do cinema europeu mais ácido, evocando ecos de Ruben Östlund e Thomas Vinterberg, mas sem jamais alcançar a mesma precisão cirúrgica desses autores ao dissecar relações humanas. 


O ponto de virada, quando Emma revela seu passado perturbador durante um jantar entre amigos, é ao mesmo tempo o grande trunfo e a principal fragilidade do filme. A confissão é chocante, concebida para desestabilizar tanto os personagens quanto o público, mas sua construção flerta com o absurdo de maneira ambígua. O roteiro parece indeciso entre tratar a revelação como sátira de mau gosto ou como elemento genuíno de suspense psicológico. Essa hesitação compromete o impacto dramático, pois o filme exige que levemos a sério uma ideia que ele próprio não sustenta plenamente. 

Ainda assim, há um fascínio inegável na maneira como “O Drama” explora a paranoia crescente de Charlie. Pattinson, especialista em personagens emocionalmente instáveis, transforma o protagonista em um retrato quase caricatural de ansiedade contemporânea. Seu desempenho é nervoso, errático e por vezes hipnótico, embora o roteiro não lhe ofereça um arco emocional consistente. Charlie não evolui, apenas se deteriora, e essa deterioração carece de profundidade reflexiva, funcionando mais como mecanismo narrativo do que como investigação psicológica real.

Zendaya, por sua vez, entrega uma atuação contida e silenciosa, sugerindo camadas de fragilidade e ambiguidade que o texto raramente explora com a devida complexidade. Sua presença em cena é espetacular, mas o filme parece incapaz de compreender plenamente as implicações de sua personagem, especialmente quando tangencia questões de gênero e raça. Há uma oportunidade clara de aprofundamento que Borgli evita, como se temesse levar sua própria provocação às últimas consequências. 


Do ponto de vista formal, o filme oscila entre momentos de inventividade e excessos estilísticos. Os cortes abruptos, a fragmentação temporal e as distorções sensoriais criam uma atmosfera de instabilidade interessante no início, mas perdem força à medida que se tornam repetitivos. O que começa como linguagem expressiva termina como afetação, reforçando a sensação de que o filme está mais interessado em parecer provocador do que em realmente sustentar suas ideias.

No fim, “O Drama” cumpre parcialmente o que promete no título. Há tensão, há desconforto e há um certo prazer perverso em observar o desmoronamento emocional de seus personagens. No entanto, a obra permanece presa em sua própria superficialidade, incapaz de transformar sua premissa provocativa em uma reflexão mais profunda sobre amor, moralidade e identidade. É um filme que instiga, mas não permanece, que provoca, mas não aprofunda. E talvez seja justamente essa contradição que o define com mais precisão.