08/04/2026

Crítica | Os Estranhos - Capítulo Final

Encerrar uma trilogia já problemática é sempre um desafio, mas “Os Estranhos - Capítulo Final” parece mais interessado em confirmar os erros acumulados do que em oferecer qualquer tipo de redenção. Sob a direção de Renny Harlin, o projeto que nasceu como uma releitura do original de Bryan Bertino termina como uma experiência fragmentada, cuja própria existência jamais se justifica. A ideia de transformar uma estrutura clássica de três atos em três filmes distintos revela-se aqui não apenas equivocada, mas sintoma de uma incompreensão profunda sobre o que tornava o material original tão perturbador.

Há, de fato, vestígios de um filme potencialmente interessante soterrados sob essa abordagem. Se condensada, a narrativa poderia funcionar como um único longa coeso, acompanhando a progressão da protagonista de vítima a algo mais ambíguo. No entanto, ao se dividir artificialmente, a trilogia dilui qualquer impacto dramático. O primeiro capítulo refazia sem brilho o suspense claustrofóbico do original, enquanto os seguintes tentavam expandir um universo que jamais precisou de explicações. O resultado é uma perda completa da essência que fazia da ameaça algo inquietante: a aleatoriedade.

Neste capítulo final, acompanhamos Maya, vivida por Madelaine Petsch, em fuga após os eventos anteriores, apenas para ser novamente capturada por Gregory, interpretado por Gabriel Basso, cuja ligação com a cidade e com o xerife vivido por Richard Brake reforça uma das poucas ideias interessantes do filme. A noção de uma comunidade que tolera assassinos desde que suas vítimas sejam forasteiras carrega um potencial temático perturbador, mas é explorada de forma superficial e quase protocolar. O que poderia ser uma crítica social ou um estudo sobre moralidade coletiva transforma-se apenas em pano de fundo mal desenvolvido. 



A tentativa de inserir uma dinâmica psicológica mais complexa, ao sugerir que Maya poderia ser moldada para se tornar parte do ciclo de violência, talvez seja o elemento mais promissor da narrativa. Ainda assim, falta coragem para levar essa ideia às últimas consequências. O roteiro recua sempre que se aproxima de qualquer ambiguidade mais provocativa, preferindo seguir caminhos previsíveis e dramaticamente inócuos. A transformação da protagonista nunca se concretiza, e o que resta é uma personagem esvaziada, quase passiva diante dos acontecimentos (principalmente no que se refere a sua irmã). 

Curiosamente, Madelaine Petsch se mantém como o principal ponto de sustentação do filme, mesmo quando o roteiro a abandona. Sua presença transmite resquícios de humanidade em meio a uma narrativa que parece desinteressada em desenvolver emoções reais. Ainda assim, até sua performance acaba limitada por uma construção dramática que a reduz a olhares vazios e reações mínimas, como se o próprio filme tivesse desistido de si mesmo. 

Visualmente, Renny Harlin demonstra muita competência, compondo algumas cenas que sugerem uma atmosfera mais inquietante. No entanto, esses momentos são isolados e incapazes de sustentar o conjunto. A estética nunca encontra uma identidade própria, oscilando entre o genérico e o funcional, sem jamais atingir a força necessária para compensar as fragilidades narrativas. 

O aspecto mais surpreendente, porém, é a ausência quase total de tensão. Um conceito que nasceu do medo do imprevisível é transformado em uma sequência de eventos mecânicos, previsíveis e emocionalmente inertes. Mesmo com um número elevado de mortes, falta impacto, falta urgência, falta envolvimento. O terror aqui não assusta, apenas acontece, exceto nos poucos jumpscare.

Os Estranhos - Capítulo Final, se consolida como o desfecho de uma trilogia que nunca encontrou razão para existir. A expansão de um universo que funcionava justamente por sua simplicidade revela-se um erro fundamental. Quanto mais explicações são adicionadas, menos interessante a história se torna. O que poderia ter sido um thriller enxuto e perturbador transforma-se em um exercício prolongado de redundância e desgaste.

Resta a sensação de um projeto esgotado antes mesmo de começar, um filme que não apenas falha em encerrar sua própria narrativa de forma satisfatória, mas que também evidencia o vazio criativo que permeou toda a trilogia. Não é apenas um final fraco, é a confirmação de uma ideia que jamais deveria ter sido levada adiante. 

Crítica | O Drama

“O Drama” é o tipo de filme que se apresenta como uma provocação sofisticada, mas que encontra suas maiores forças justamente quando abraça o desconforto mais cru e menos elaborado. Dirigido por Kristoffer Borgli, o longa parte de uma premissa sedutora e inquietante, transformando o território aparentemente leve da comédia romântica em um campo minado psicológico, onde segredos íntimos têm o poder de corroer qualquer ideal de amor perfeito. A relação entre Charlie, vivido por Robert Pattinson, e Emma, interpretada por Zendaya, nasce envolta em charme e acaso, mas desde o início carrega um ruído estranho, quase imperceptível, que anuncia o colapso inevitável.

Borgli demonstra habilidade ao manipular linguagem e atmosfera, utilizando recursos sonoros e visuais que deslocam o espectador do conforto típico das narrativas românticas. O encontro inicial do casal, que poderia ser apenas mais um clichê encantador, é filmado como um episódio de tensão latente, sugerindo que algo está profundamente desalinhado por trás da superfície. Essa escolha estética aproxima o filme de tradições do cinema europeu mais ácido, evocando ecos de Ruben Östlund e Thomas Vinterberg, mas sem jamais alcançar a mesma precisão cirúrgica desses autores ao dissecar relações humanas. 


O ponto de virada, quando Emma revela seu passado perturbador durante um jantar entre amigos, é ao mesmo tempo o grande trunfo e a principal fragilidade do filme. A confissão é chocante, concebida para desestabilizar tanto os personagens quanto o público, mas sua construção flerta com o absurdo de maneira ambígua. O roteiro parece indeciso entre tratar a revelação como sátira de mau gosto ou como elemento genuíno de suspense psicológico. Essa hesitação compromete o impacto dramático, pois o filme exige que levemos a sério uma ideia que ele próprio não sustenta plenamente. 

Ainda assim, há um fascínio inegável na maneira como “O Drama” explora a paranoia crescente de Charlie. Pattinson, especialista em personagens emocionalmente instáveis, transforma o protagonista em um retrato quase caricatural de ansiedade contemporânea. Seu desempenho é nervoso, errático e por vezes hipnótico, embora o roteiro não lhe ofereça um arco emocional consistente. Charlie não evolui, apenas se deteriora, e essa deterioração carece de profundidade reflexiva, funcionando mais como mecanismo narrativo do que como investigação psicológica real.

Zendaya, por sua vez, entrega uma atuação contida e silenciosa, sugerindo camadas de fragilidade e ambiguidade que o texto raramente explora com a devida complexidade. Sua presença em cena é espetacular, mas o filme parece incapaz de compreender plenamente as implicações de sua personagem, especialmente quando tangencia questões de gênero e raça. Há uma oportunidade clara de aprofundamento que Borgli evita, como se temesse levar sua própria provocação às últimas consequências. 


Do ponto de vista formal, o filme oscila entre momentos de inventividade e excessos estilísticos. Os cortes abruptos, a fragmentação temporal e as distorções sensoriais criam uma atmosfera de instabilidade interessante no início, mas perdem força à medida que se tornam repetitivos. O que começa como linguagem expressiva termina como afetação, reforçando a sensação de que o filme está mais interessado em parecer provocador do que em realmente sustentar suas ideias.

No fim, “O Drama” cumpre parcialmente o que promete no título. Há tensão, há desconforto e há um certo prazer perverso em observar o desmoronamento emocional de seus personagens. No entanto, a obra permanece presa em sua própria superficialidade, incapaz de transformar sua premissa provocativa em uma reflexão mais profunda sobre amor, moralidade e identidade. É um filme que instiga, mas não permanece, que provoca, mas não aprofunda. E talvez seja justamente essa contradição que o define com mais precisão.

26/03/2026

Crítica | Velhos Bandidos


“Velhos Bandidos” se sustenta em um paradoxo curioso que o próprio filme parece abraçar sem constrangimento: ao mesmo tempo em que se constrói sobre uma premissa clássica de filmes de assalto, ele pouco se interessa em desenvolver a engrenagem dramática que tradicionalmente move esse tipo de narrativa. O longa dirigido por Cláudio Torres prefere deslocar o foco para aquilo que, de fato, lhe dá vida, que é o encontro entre gerações de atores super carismáticos, capazes de transformar situações banais em momentos de genuína presença cênica. Nesse sentido, o filme encontra sua principal força na dupla central formada por Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, cuja química transcende o texto e cria uma espécie de cumplicidade que não depende da lógica do roteiro para funcionar.

Há algo de quase contemplativo na maneira como “Velhos Bandidos” observa seus personagens. O assalto, que deveria ser o motor da trama, funciona mais como um pano de fundo, um pretexto para colocar essas figuras em movimento. O filme parece respirar no tempo de seus intérpretes, permitindo que gestos, pausas e olhares ganhem mais relevância do que qualquer reviravolta narrativa. Essa escolha, embora limitadora do ponto de vista dramático, revela uma consciência estética interessante, pois transforma o longa em uma comédia de convivência, quase um registro afetivo de encontros.


Ao lado dos veteranos, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta assumem o papel de contraponto geracional, trazendo energia e leveza à narrativa. Existe um jogo interessante entre experiência e impulsividade, ainda que o roteiro não explore esse conflito com a profundidade que poderia. Já Lázaro Ramos, como o investigador que persegue o grupo, encontra um equilíbrio eficiente entre humor e seriedade, funcionando como uma espécie de eixo de estabilidade em meio ao tom irregular do filme.

No entanto, é justamente no campo do roteiro que o filme revela suas maiores fragilidades. As situações são construídas com uma lógica frouxa, marcada por incongruências e soluções fáceis que comprometem qualquer senso de verossimilhança. O universo apresentado assume uma artificialidade evidente, desde os cenários que parecem cenográficos até a construção de personagens reduzidos a arquétipos. Em muitos momentos, o filme parece operar sob a lógica de um entretenimento simplificado, moldado para uma atenção dispersa, onde tudo precisa ser explicado, repetido e mastigado. 

Ainda assim, há uma escolha consciente em não levar essa artificialidade como um problema, mas como parte do próprio jogo. “Velhos Bandidos” flerta constantemente com a paródia, posicionando-se entre a homenagem e a caricatura dos filmes de assalto. O resultado é um tom irregular, que ora diverte pela leveza e pelo absurdo, ora incomoda pela falta de rigor narrativo. A direção de Cláudio Torres demonstra domínio do ritmo e da encenação, utilizando recursos visuais e sonoros de maneira funcional, mas sempre subordinados às performances. Há um cuidado claro em não deixar que a forma se sobreponha aos atores, o que reforça a centralidade do elenco como principal atrativo. 


Outro ponto que atravessa o filme é sua tentativa de construir uma reflexão sobre o envelhecimento. A semiótica de colocar personagens idosos no centro de uma narrativa de ação e crime carrega um potencial simbólico interessante, sugerindo uma valorização da vitalidade e da autonomia na terceira idade. No entanto, essa proposta é tratada de forma ambígua, alternando entre uma celebração sincera e uma abordagem que, por vezes, resvala em estereótipos ou humor simplista. O filme parece indeciso entre homenagear seus personagens ou transformá-los em figuras caricaturais. 

“Velhos Bandidos” funciona menos como uma obra narrativa coesa e mais como uma experiência de presença. Seu valor está no prazer de ver grandes nomes do cinema brasileiro dividindo a tela, em um encontro que carrega tanto peso histórico quanto leveza emocional. É um filme que não pretende reinventar o gênero nem oferecer complexidade dramática, mas que encontra algum sentido justamente na simplicidade, na insistência desses personagens em continuar, em existir, em ocupar espaço. Entre falhas evidentes e acertos afetivos, o longa se estabelece como um entretenimento irregular, porém simpático, sustentado quase inteiramente pelo carisma de seu elenco. 

Crítica | Eles Vão Te Matar


“Eles Vão Te Matar” é o tipo de obra que parece nascer de um impulso cinéfilo intenso, quase obsessivo, mas que se perde ao tentar equilibrar reverência e identidade própria. Dirigido por Kirill Sokolov, o filme assume desde os primeiros minutos suas influências mais evidentes, evocando diretamente o espírito estilizado de Kill Bill a la possessão demoníaca. Essa combinação, que à primeira vista soa sedutora, rapidamente revela seu principal problema, uma dependência excessiva de referências que, em vez de enriquecer a experiência, acaba diluindo qualquer traço de personalidade autoral.

A protagonista interpretada por Zazie Beetz é, sem dúvida, o coração pulsante do filme. Sua Asia Reaves surge como uma heroína real e emocionalmente comprometida, capaz de sustentar tanto a brutalidade das sequências de ação quanto os resquícios de humanidade que o roteiro tenta, ainda que timidamente, desenvolver. Há uma entrega notável na performance, seja ao enfrentar hordas de inimigos com um machado em chamas, seja ao carregar o trauma que motiva sua jornada. Beetz demonstra carisma e presença suficientes para liderar uma possível franquia, mesmo quando o material ao seu redor não corresponde à sua intensidade.


O ponto de partida é simples e eficaz, uma mulher entra em um hotel carregado de simbolismos demoníacos e descobre que seus habitantes fazem parte de um culto que desafia a morte. O cenário do Virgil, com sua atmosfera opressiva e iconografia infernal, estabelece um espaço promissor para um jogo de sobrevivência claustrofóbico. No entanto, essa promessa é rapidamente sabotada por uma escolha narrativa que compromete toda a tensão do filme, a imortalidade dos antagonistas. Ao transformar a violência em algo sem consequências permanentes, o longa esvazia o impacto de cada confronto, convertendo o que deveria ser impactante em algo repetitivo e, por vezes, entorpecente.

Visualmente, Sokolov demonstra energia e inventividade. Há momentos em que a câmera parece dançar com os personagens, explorando corredores, espaços confinados e enquadramentos que remetem a painéis de histórias em quadrinhos. Sequências específicas alcançam um nível de dinamismo impressionante, lembrando tanto a coreografia precisa de Oldboy quanto a estilização exagerada do cinema de ação contemporâneo. Ainda assim, essas cenas frequentemente existem de forma isolada, desconectadas de uma progressão narrativa consistente. O filme se transforma em uma coleção de ideias visuais interessantes, mas sem um eixo dramático que lhes dê sentido. 

A estrutura narrativa sofre com essa fragmentação. A geografia do hotel nunca é claramente estabelecida, os objetivos da protagonista se tornam difusos e os antagonistas carecem de desenvolvimento. Mesmo tentativas de inserir temas mais amplos, como desigualdade social ou exploração de classes, aparecem de forma superficial, quase como um adorno obrigatório que não se integra ao restante da obra. O resultado é um filme que flerta com a crítica social, mas não se compromete com ela, preferindo retornar rapidamente à carnificina estilizada.


Ainda assim, há um tipo específico de prazer que “Eles Vão Te Matar” consegue oferecer. Quando abraça completamente seu absurdo, o filme encontra momentos de diversão genuína, especialmente para um público disposto a se deixar levar pelo excesso. Em uma sala cheia, com espectadores reagindo coletivamente às cenas mais extravagantes, essa experiência tende a ganhar força, transformando suas limitações em parte do espetáculo. É um cinema que funciona mais pela energia do momento do que pela construção cuidadosa.  

O longa se estabelece como uma obra profundamente irregular. Há talento evidente na direção e uma performance central interessante, mas falta coesão, propósito e, sobretudo, identidade. Entre homenagens, exageros e ideias não totalmente desenvolvidas, “Eles Vão Te Matar” acaba sendo menos do que a soma de suas partes. É um filme que grita por impacto, mas que, ao esvaziar as consequências de sua própria violência, termina deixando uma sensação curiosamente morna, como um espetáculo barulhento que ecoa referências maiores sem jamais alcançá-las.

19/03/2026

Crítica | Casamento Sangrento: A Viúva


“Casamento Sangrento: A Viúva” surge como uma sequência que abraça sem pudor a lógica de expansão típica das franquias contemporâneas. Se o primeiro “Casamento Sangrento” se sustentava na elegância brutal de uma única ideia bem executada, aqui a proposta é inflar esse conceito até seus limites, multiplicando regras, personagens e conflitos em uma escala quase operística. O resultado é um filme que oscila entre o excesso e o entretenimento puro, mas que dificilmente pode ser acusado de falta de ambição ou energia.

A trama retoma imediatamente após os eventos anteriores, com Grace, novamente interpretada por Samara Weaving, sobrevivendo ao massacre da família Le Domas apenas para ser lançada em um jogo ainda maior e mais cruel. O que antes era um ritual familiar isolado agora se revela parte de uma conspiração global envolvendo elites que competem por poder absoluto sob regras ditadas por um pacto sombrio. Essa ampliação do universo narrativo exige um esforço expositivo considerável, simbolizado quase de forma cômica pela presença de um personagem encarregado de explicar normas complexas a partir de um livro gigantesco. É um sinal claro de que o filme abandona qualquer pretensão de simplicidade em favor de um caos cuidadosamente orquestrado.


Nesse novo tabuleiro, Grace deixa de ser apenas uma vítima em fuga para se tornar uma peça central em uma disputa entre famílias poderosas. A introdução de Faith, vivida por Kathryn Newton, tenta adicionar uma dimensão emocional à narrativa, explorando uma relação fraterna marcada por ressentimentos mal resolvidos. No entanto, esse arco dramático nunca se desenvolve de maneira plenamente convincente. A relação entre as duas parece mais uma ferramenta de roteiro do que um vínculo orgânico, o que enfraquece parte do impacto emocional que o filme claramente pretende alcançar.

Por outro lado, o filme encontra força em seu elenco de apoio, que mergulha no absurdo com notável entrega. Shawn Hatosy constrói um antagonista perturbador que mistura carisma e crueldade em doses crescentes, enquanto Sarah Michelle Gellar adiciona uma frieza calculada que reforça o clima de disputa interna entre as elites. Já Elijah Wood funciona como uma espécie de observador irônico do caos, trazendo um humor sutil que ajuda a equilibrar o tom excessivamente violento da narrativa. Esse conjunto de personagens transforma o filme em uma galeria de caricaturas do poder, figuras que beiram a paródia, mas que nunca deixam de ser ameaçadoras.

A direção de Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett aposta em uma estética que mistura horror, ação muito frenética e humor ácido. Há uma clara intenção de transformar cada sequência em um espetáculo, seja por meio de confrontos exagerados ou de situações absurdas que desafiam qualquer lógica realista. Em alguns momentos, essa abordagem funciona muito bem, especialmente quando o filme abraça seu lado mais satírico e transforma a carnificina em crítica social. Em outros, porém, o excesso se torna um problema, diluindo a tensão e tornando a experiência mais cansativa do que interessante.


Um dos aspectos mais interessantes do filme está na forma como ele dialoga com a ideia contemporânea de elites corruptas e sistemas de poder opacos. Ao retratar essas famílias como participantes de um jogo mortal regido por interesses egoístas, a narrativa toca em uma ansiedade coletiva bastante atual. Existe um prazer quase catártico em ver essas figuras sendo ridicularizadas ou eliminadas, como se o filme oferecesse uma fantasia de justiça contra estruturas inalcançáveis na vida real. Ainda assim, essa crítica perde força ao longo da projeção, já que o roteiro não consegue aprofundar suas próprias ideias, recorrendo repetidamente às mesmas metáforas sem expandi-las de maneira significativa.

Do ponto de vista estrutural, a sequência sofre com a própria ambição. A multiplicação de personagens e subtramas cria uma sensação de dispersão que contrasta com a precisão do filme original. A narrativa se torna episódica, alternando entre confrontos e explicações, sem conseguir manter uma progressão dramática consistente. Mesmo assim, há momentos de inventividade, especialmente nas cenas de ação que combinam violência e humor de forma criativa, ainda que ocasionalmente exagerada.

No centro de tudo, permanece a atuação de Samara Weaving, que mais uma vez sustenta o filme com uma presença emocional impressionante. Sua Grace evolui de sobrevivente desesperada para uma figura quase mítica, movida por raiva, resistência e um senso de absurdo diante da situação em que se encontra. É uma performance que impede o filme de colapsar sob o peso de suas próprias ideias, funcionando como âncora em meio ao caos narrativo.

"Casamento Sangrento: A Viúva” amplia tudo: escala, violência e ambição, mas prova que nem todo crescimento significa evolução. Entre o espetáculo e o excesso, o filme diverte mas se perde na própria grandiosidade

18/03/2026

Crítica | Uma segunda chance


Uma segunda chance, adaptação do romance de Colleen Hoover dirigida por Vanessa Caswill, chega aos cinemas cercada por um contexto curioso. Depois do sucesso inesperado de "É Assim Que Acaba” Hollywood parece empenhada em transformar os livros da autora em uma nova mina de melodramas românticos para o grande público. O risco evidente dessa estratégia é a saturação de fórmulas sentimentais e tramas previsíveis. Ainda assim, dentro desse cenário um tanto cético, “Uma Segunda Chance” revela algo surpreendente. Mesmo carregando os clichês típicos desse tipo de narrativa, o filme encontra momentos de sinceridade emocional que o tornam mais eficaz do que se poderia imaginar.

A história acompanha Kenna Rowan, interpretada por Maika Monroe, uma jovem que retorna à pequena cidade de Laramie após cumprir anos de prisão por homicídio culposo em um acidente de carro que matou seu namorado Scotty. Ao sair da prisão, ela descobre que perdeu completamente o direito de conviver com a filha que nasceu durante sua pena. A menina foi criada pelos pais de Scotty, que enxergam Kenna apenas como a responsável pela morte do filho. Essa premissa poderia facilmente descambar para o melodrama excessivo, mas o filme opta por uma abordagem relativamente contida. O drama não surge de grandes reviravoltas narrativas, e sim da tentativa silenciosa de uma mulher de reconstruir a própria vida em um lugar onde praticamente todos a odeiam.


Nesse processo, surge Ledger, interpretado por Tyriq Withers, o melhor amigo de Scotty. Ele é um ex jogador da NFL que voltou para a cidade natal após uma lesão e que agora administra um bar local. Ledger também se tornou uma figura paterna para a filha de Scotty e Kenna, o que transforma o encontro entre ele e a protagonista em uma situação emocionalmente delicada desde o início. A atração entre os dois é imediata e inevitável, embora o filme saiba que essa premissa exige uma boa dose de suspensão da descrença. Afinal, é difícil aceitar que ele não reconheça imediatamente a mulher envolvida na morte do melhor amigo. O roteiro tenta justificar esse detalhe de maneira pouco convincente, mas rapidamente abandona a explicação e segue adiante.

O que sustenta o filme é menos a plausibilidade do enredo e mais a intensidade emocional dos personagens. Monroe constrói Kenna como uma figura melancólica e silenciosa, alguém que carrega culpa e esperança em proporções iguais. Sua atuação evita transformar a personagem em mártir ou vítima absoluta. Já Withers apresenta Ledger como um homem dividido entre lealdade, luto e desejo, um gigante gentil que tenta reconciliar a memória do amigo com a percepção de que a mulher que ele aprendeu a odiar talvez não seja o monstro que imaginava. A química entre os dois não é explosiva, mas funciona como motor dramático de uma história construída sobre feridas abertas.


Visualmente, o filme se beneficia bastante do cenário natural que representa o interior do Wyoming. As paisagens montanhosas fotografadas oferecem uma atmosfera contemplativa que combina com o ritmo lento da narrativa. Há também um uso cuidadoso da trilha sonora, que inclui nomes como Kacey Musgraves e Waxahatchee. Essas músicas ajudam a criar um clima de nostalgia rural que reforça a sensação de isolamento emocional da protagonista.

Nem tudo funciona perfeitamente. A direção de Caswill às vezes recorre a escolhas estilísticas um pouco excessivas, como sequências em câmera lenta que lembram videoclipes e interrompem o fluxo natural da narrativa. O recurso das cartas que Kenna escreve para o namorado morto também pode soar artificial, especialmente quando usado como narração explicativa para sentimentos que já estavam claros na atuação. Em alguns momentos, o filme parece desconfiar da capacidade do público de compreender suas emoções sem ajuda. 

Apesar dessas fragilidades, “Uma Segunda Chance” consegue evitar o tipo de manipulação sentimental que costuma marcar muitas adaptações de romances populares. O drama se desenrola de forma relativamente discreta, concentrando-se na jornada de redenção de Kenna e no desejo quase universal de recomeçar após uma tragédia. O confronto inevitável com os avós da criança, interpretados por Lauren Graham e Bradley Whitford, oferece alguns dos momentos mais dolorosos do filme, pois revela que todos os personagens estão presos ao mesmo luto, apenas expressando essa dor de maneiras diferentes.

05/03/2026

Crítica | a noiva!

"A Noiva!" apresenta uma releitura ousada do clássico mito criado em Mary Shelley, explorando a origem da famosa companheira do monstro de Frankenstein sob uma perspectiva mais moderna, intensa e emocional. Ambientado em uma Chicago estilizada da década de 1930, o filme mergulha em uma estética que mistura gótico, noir e elementos cyberpunk, criando um universo visualmente hipnotizante. Desde os primeiros minutos fica claro que a proposta aqui é mais sensorial e artística do que convencional.

Um dos grandes trunfos do filme está na sua fotografia e direção de arte.  A cidades apresentadas na tela parecem saídas de um pesadelo elegante: ruas escuras iluminadas por néons, sombras profundas e uma atmosfera decadente que dialoga perfeitamente com a natureza trágica de seus personagens. Essa escolha estética cria um cyberpunk noir inesperado para um filme de monstros, mas que funciona muito bem ao reforçar os temas centrais da história: solidão, obsessão, identidade e desejo. O resultado é um filme esteticamente deslumbrante, daqueles em que cada enquadramento parece pensado para ser contemplado.


O elenco é outro grande destaque. Christian Bale entrega uma das interpretações mais memoráveis de Frankenstein no cinema. Seu personagem é caricato, perturbador e fascinante, potencializado por uma maquiagem impressionante que ajuda a construir uma figura quase grotesca, mas ao mesmo tempo profundamente humana. Ao seu lado, Jessie Buckley assume o papel da Noiva com uma intensidade impressionante. Sua performance é caótica, magnética e emocionalmente densa, criando uma personagem que oscila entre inocência, fúria e desejo. A química entre Buckley e Bale é um dos motores do filme e sustenta o romance estranho e denso que conduz a narrativa. Mesmo em participações rápidas, nomes como Jake Gyllenhaal e Penélope Cruz conseguem deixar sua marca, reforçando a sensação de que o filme é povoado por figuras excêntricas.

Narrativamente, “A Noiva” não é um filme fácil. A história se desenvolve como uma teia surreal que vai revelando suas camadas aos poucos, misturando romance, horror e drama existencial. Ao longo de duas horas, o espectador é conduzido por uma jornada louca, intensa e impactante, onde o foco não está apenas no enredo, mas nas emoções e nos conflitos internos das criaturas. Esse estilo torna o filme inteligente e provocativo, mas também pode afastar parte do público.


Talvez o maior problema do filme seja justamente a ausência de uma linha narrativa mais clara. Em diversos momentos, a história parece se perder em suas próprias ideias, deixando o espectador sem saber exatamente qual direção a trama pretende seguir. Mas isso necessariamente é um defeito? Depende do olhar de quem assiste. Alguns podem enxergar essa falta de estrutura como um problema narrativo. Outros podem interpretar o caos da história como uma metáfora para o próprio tema central do filme: o amor como algo imprevisível, confuso e, às vezes, destrutivo.

"A Noiva!" é estranho, belo e perturbador exatamente como a história de amor que ele decide contar. O filme aposta em uma experiência mais sensorial e autoral do que narrativa, sustentada por uma estética marcante e por atuações intensas de Christian Bale e Jessie Buckley. Mesmo que em alguns momentos pareça se perder em sua própria proposta, o longa encontra força justamente nesse caos emocional. O resultado é uma obra ousada, que pode dividir opiniões, mas que entrega uma experiência cinematográfica poderosa e difícil de esquecer.

04/03/2026

Crítica | CARA DE UM, FOCINHO DE OUTRO


Cara de Um, Focinho de Outro é uma animação animalesca e espirituosa que reafirma a vocação da Pixar para unir entretenimento popular, inventividade narrativa e reflexão emocional em uma mesma engrenagem. Dirigido por Daniel Chong e co-escrito por Jesse Andrews, com produção de Pete Docter, o filme parte de uma premissa que poderia soar absurda até mesmo para os padrões do estúdio, mas a desenvolve com uma segurança criativa que transforma o inusitado em encantamento. No centro da história está Mabel Tanaka, uma jovem universitária de 19 anos cujo espírito é transferido para o corpo de um castor robô, numa operação científica que mistura ficção científica, sátira e justiça ambiental. O resultado é uma aventura que dialoga com a tradição do antropomorfismo da Disney e da própria Pixar, ao mesmo tempo em que faz uma divertida paródia de obras como “Avatar”, “O Rei Leão" e "A Origem". 

Desde a infância, Mabel é apresentada como uma garota movida por uma fúria moral diante do sofrimento animal. Há algo de cômico e ao mesmo tempo comovente na cena em que ela tenta libertar os animais de estimação da escola, escondendo-os na mochila como se estivesse realizando uma operação de resgate clandestina. Essa energia rebelde, que na juventude se manifesta em seu visual skatista e no gesso no pulso, encontra contraponto na serenidade da avó, Vovó Tanaka. É ela quem ensina a menina a silenciar, observar e escutar a clareira próxima de casa, espaço que se tornará símbolo de pertencimento e transcendência. A sabedoria da avó introduz um dos temas centrais do filme: a ideia de que a raiva frequentemente nasce do medo e que só se dissolve quando nos reconhecemos como parte de algo maior.

Anos depois, já estudante na Universidade de Beaverton, Mabel enfrenta um novo motivo para sua indignação. O prefeito Jerry Generazzo, vivido por Jon Hamm, planeja destruir a clareira para construir um anel viário. A justificativa é pragmática e típica do discurso político desenvolvimentista: o local não abriga mais vida selvagem, logo pode ser explorado. É nesse ponto que o roteiro costura habilmente o conflito externo com o conflito interno da protagonista. Para impedir legalmente a obra, Mabel precisa provar que o ecossistema ainda é ativo, o que a leva a descobrir os experimentos secretos da professora Samantha Fairfax. A cientista desenvolveu uma tecnologia de transferência de consciência para corpos de animais robóticos, uma invenção que o filme ironiza ao insistir que não tem nada a ver com Avatar, ainda que a comparação seja inevitável.


Ao assumir o controle do castor robô, Mabel adentra um universo que combina a ternura típica da Pixar com um humor surpreendentemente ácido. Como castor, ela compreende a linguagem de todos os animais e passa a interagir com George, o autoproclamado rei dos mamíferos, vivido por Bobby Moynihan. George é um idealista tolerante, quase um guru da convivência ecológica, que acredita nas “regras do lago” como fundamento de uma ética comunitária. Entre elas estão “não seja um estranho” e “estamos todos juntos nessa”, princípios que funcionam tanto como piada quanto como proposta moral. O contraste entre o pragmatismo impaciente de Mabel e o otimismo quase ingênuo de George gera algumas das melhores cenas do filme, especialmente quando a jovem se vê obrigada a confrontar a realidade de que predadores comem presas e que o ciclo da vida não é uma metáfora inofensiva.

A entrada do conselho animal amplia o escopo narrativo e mergulha o filme numa sátira política de contornos deliciosamente caóticos. A rainha dos insetos, vivida por Meryl Streep, surge como uma líder fria e calculista, enquanto seu filho Titus, vivido por Dave Franco, adiciona inquietação e ambiguidade ao jogo de poder. A sequência em que pássaros transportam um tubarão branco chamado Diane pela estrada, transformando-o num improvável carro esportivo com dentes, sintetiza o espírito anárquico da obra. O absurdo não é gratuito; ele serve para desmontar hierarquias e expor o quanto as estruturas de poder, humanas ou animais, podem ser ridiculamente frágeis.

Visualmente, “Cara de Um, Focinho de Outro” exibe a excelência técnica que se espera da Pixar. As texturas da água, das folhas e da madeira da represa dos castores são apresentadas com um realismo tátil impressionante. A clareira é filmada como um santuário vivo, capaz de transmitir paz e melancolia ao mesmo tempo. Esse cuidado estético reforça a dimensão emocional da narrativa, especialmente quando o luto de Mabel pela avó ressurge em pequenos detalhes, como o destino simbólico de uma peça de roupa que carrega memória e afeto. A natureza não é apenas cenário, mas personagem ativa que molda comportamentos e decisões.


O filme também acerta ao não transformar Jerry em um vilão unidimensional. Inicialmente apresentado como um político arrogante e hipócrita, ele ganha nuances à medida que a trama avança. O roteiro sugere que até mesmo aqueles que defendem projetos destrutivos podem acreditar estar agindo em nome da comunidade. Essa ambiguidade enriquece o debate sobre desenvolvimento, progresso e responsabilidade coletiva, evitando o maniqueísmo simplista que poderia reduzir a narrativa a um panfleto ecológico.

No entanto, o maior mérito do longa reside na exploração do conflito interno de Mabel. Sua raiva, embora compreensível, é mostrada como força ambivalente. Ela impulsiona a ação, mas também obscurece a empatia. Ao viver como castor e experimentar a dinâmica complexa da comunidade animal, Mabel aprende que salvar a clareira exige mais do que indignação. Exige diálogo, colaboração e reconhecimento das diferenças. O filme insiste que a verdadeira transformação não está na tecnologia que permite transferir consciências, mas na capacidade de ampliar o significado de nós.

Cara de Um, Focinho de Outro talvez não alcance o estatuto mítico de clássicos como “Toy Story" ou "Divertida Mente", mas reafirma a vitalidade criativa da Pixar quando o estúdio se permite ousar. É uma obra que combina sátira, emoção e um grande espetáculo visual com uma leveza rara. Ao final, quando humanos e animais precisam decidir se conseguem agir como parte de um mesmo sistema interdependente, o filme oferece uma mensagem que soa simples, mas nunca simplista. Em tempos marcados por divisões entre nós e eles, a animação propõe que a sobrevivência coletiva depende da coragem de reconhecer que todos habitamos a mesma clareira, literal e simbolicamente.

23/02/2026

Crítica | O Caso dos Estrangeiros


O Caso dos Estrangeiros chega aos cinemas em 26 de fevereiro de 2026 trazendo um drama intenso e bastante atual, que coloca o espectador diante da dura realidade enfrentada por refugiados sírios. Longe de romantizar a situação, o filme aposta em uma narrativa humana para mostrar pessoas comuns tentando apenas sobreviver e encontrar um lugar seguro para viver.

A história começa com uma médica que é forçada a fugir de Aleppo ao lado da filha pequena, mas rapidamente amplia seu foco ao apresentar outros personagens cujas vidas acabam se cruzando: um contrabandista tentando salvar o próprio filho, um soldado em conflito com suas escolhas, uma poetisa procurando um novo lar e um capitão da guarda costeira grega dividido entre seguir ordens ou agir com compaixão. Todos caminham para o mesmo ponto, em uma noite decisiva no Mediterrâneo.


Um dos grandes acertos do filme está na forma como a história é contada. A narrativa é dividida em capítulos que funcionam como peças de um quebra-cabeça, revelando aos poucos como cada personagem se conecta. Esse formato mantém o interesse e ajuda a construir o impacto do final, deixando claro que, apesar das histórias diferentes, todas aquelas famílias compartilham o mesmo objetivo: fugir dos conflitos e conquistar o direito a uma vida normal.

O longa também funciona como uma crítica relevante ao atual cenário político internacional, especialmente às discussões sobre imigração e o tratamento dado a estrangeiros. Em vez de discursos diretos, o filme mostra o peso dessas decisões através das experiências dos personagens, evidenciando o terror de viver em uma região em guerra e o desespero de quem precisa abandonar tudo para sobreviver.

Tecnicamente, o filme é sólido. A fotografia chama atenção ao mostrar um lado da Síria pouco explorado no cinema, indo além das imagens comuns de destruição e reforçando que ali existiam vidas, rotinas e histórias antes do conflito. A trilha sonora acompanha bem o tom da narrativa, reforçando a tristeza constante que permeia toda a experiência.

Por outro lado, o ritmo mais lento, o idioma estrangeiro e o elenco pouco conhecido do público brasileiro podem criar uma barreira inicial para parte da audiência. Não é um filme fácil nem leve, pelo contrário, é uma experiência pesada do começo ao fim, e isso pode afastar quem busca algo mais dinâmico.

Ainda assim, O Caso dos Estrangeiros é um bom filme, importante por retratar de forma direta e sem filtros a realidade de imigrantes que não buscam aventura ou heroísmo, apenas uma chance de viver em paz. Um drama triste, mas necessário.

18/02/2026

Crítica | O Frio Da Morte


O frio da morte é um suspense que encontra sua força na combinação entre paisagem inóspita, violência e a presença impactante de Emma Thompson em um papel bem inesperado. Ambientado no coração gelado de Minnesota, o filme dirigido por Brian Kirk parte de uma premissa simples e quase clássica: “uma viúva viaja até um lago remoto para espalhar as cinzas do marido e acaba se envolvendo em uma trama de sequestro e muita brutalidade”. O que poderia soar como mais um thriller de sobrevivência ganha densidade graças ao carisma da protagonista e à maneira como o roteiro transforma sua experiência de vida em arma.

Thompson interpreta Barb, uma mulher na casa dos sessenta anos que administrava com o marido uma loja de artigos de pesca e que domina como poucos a arte da pesca no gelo. Logo nas primeiras sequências, o filme estabelece sua competência prática e sua intimidade com o ambiente hostil. Ela sabe montar abrigo, lidar com o frio extremo, manusear armas e improvisar diante do perigo. Quando, perdida na neve, pede informações em uma cabana isolada e descobre indícios de um crime, sua reação não é a de pânico absoluto, mas de observação atenta. Ao perceber que uma adolescente está mantida em cativeiro por um casal bem perturbador, Barb assume uma postura ativa que conduz a narrativa para um embate físico e psicológico no gelo. 


Há algo deliciosamente anacrônico no modo como o filme constrói essa heroína. Em vez de apostar em juventude ou força bruta, “O Frio da Morte” valoriza a experiência acumulada e a resiliência. Barb não é uma super heroína caricatural, mas uma mulher que viveu, amou e sofreu, e que carrega no corpo e na memória as ferramentas necessárias para reagir. Quando leva um tiro no braço e precisa costurar o próprio ferimento em uma cabana abandonada com itens de sua caixa de pesca, o filme atinge um de seus momentos mais tensos e fascinantes. A dor é concreta, a cena é crua, mas também reafirma a autonomia da personagem. 

O embate com os antagonistas interpretados por Marc Menchaca e Judy Greer adiciona camadas interessantes, ainda que nem todas sejam plenamente exploradas. Menchaca encarna um homem ambíguo, dividido entre devoção conjugal e uma cumplicidade criminosa, enquanto Greer surge como a mente por trás do plano, uma figura desequilibrada cuja motivação é apenas parcialmente desenvolvida. Existe ali material para uma análise mais profunda sobre dependência, desespero e distorção moral, mas o roteiro prefere avançar rumo à ação, sacrificando algumas possibilidades temáticas no caminho. 

A direção de Brian Kirk valoriza o silêncio e o isolamento. A vastidão branca da paisagem, captada com elegância por Christopher Ross, reforça a sensação de vulnerabilidade. Cada som se destaca com nitidez inquietante, o ranger das botas na neve, o estalar de galhos na floresta, a respiração ofegante em meio ao frio cortante. A trilha de Volker Bertelmann contribui para essa atmosfera com sintetizadores discretos que evoluem para cordas tensas, intensificando o suspense sem recorrer a excessos. 

Nem tudo funciona com a mesma precisão. O uso recorrente de flashbacks para contextualizar o relacionamento de Barb com o marido, embora emocionalmente compreensível, interrompe o ritmo e enfraquece a tensão crescente da trama principal. Muitas dessas memórias poderiam ser sugeridas apenas pela expressão de Thompson, cuja atuação silenciosa é suficientemente eloquente para transmitir saudade, ternura e luto. Além disso, o roteiro apresenta algumas conveniências narrativas e decisões questionáveis que fragilizam a lógica interna da história, criando pequenos ruídos em um conjunto que busca ser coeso. 

Ainda assim, o saldo é amplamente positivo. O frio da morte se sustenta na figura de uma protagonista raramente vista nesse tipo de narrativa. Thompson equilibra doçura e firmeza com naturalidade, criando uma personagem que inspira empatia sem jamais parecer ingênua. Há um humor pontual, há sentimentalismo, há violência, mas tudo gira em torno dessa mulher que transforma sua vida comum em uma força extraordinária diante do perigo. O clímax explosivo no lago congelado entrega a fisicalidade prometida e oferece um desfecho que, mesmo imperfeito, é genuinamente impactante.

12/02/2026

Crítica | O Morro Dos Ventos Uivantes


A nova adaptação de O Morro dos Ventos Uivantes, dirigida por Emerald Fennell, deixa claro desde o início que não pretende ser apenas uma versão fiel do romance, mas uma releitura com identidade própria. É um filme que aposta na força da imagem, no impacto emocional e na intensidade das relações, ainda que isso custe parte da complexidade literária da obra original.

A história acompanha Catherine Earnshaw e Heathcliff, um órfão acolhido pela família Earnshaw na isolada propriedade nos pântanos de Yorkshire. Unidos por um vínculo profundo e quase selvagem, os dois crescem compartilhando uma conexão intensa, marcada por desejo, orgulho e dependência emocional. Quando Catherine decide se casar com Edgar Linton, buscando status e estabilidade, Heathcliff se sente traído e inicia uma jornada movida por ressentimento e vingança. O amor que antes parecia absoluto se transforma em dor, obsessão e destruição.

Visualmente, o filme é impressionante. A fotografia trabalha com tons escuros e frios nos momentos de conflito e sofrimento, reforçando o peso emocional da narrativa. Já nas cenas que envolvem luxo, desejo ou poder, as cores se tornam mais fortes e vibrantes, criando um contraste claro entre o mundo bruto dos pântanos e a sofisticação social que seduz Catherine. Cada enquadramento parece cuidadosamente pensado, e a ambientação contribui para que a natureza funcione quase como uma personagem silenciosa, mas sempre presente.


No centro da trama estão Margot Robbie e Jacob Elordi. Margot Robbie entrega uma Catherine intensa e cheia de conflitos internos, dividida entre o amor e a ambição. Elordi é o grande destaque: sua transformação de jovem vulnerável para homem endurecido pela rejeição é convincente e bem construída. Ele consegue demonstrar mudanças claras no comportamento e na postura do personagem ao longo do tempo, sem exageros. A química entre os dois é forte e sustenta a ideia de um amor que ultrapassa limites, para o bem e para o mal.

A trilha sonora traz um toque contemporâneo, com músicas de Charli XCX que surpreendem, e funcionam dentro da proposta estilizada do filme. A escolha pode dividir opiniões, mas reforça que esta é uma adaptação pensada para dialogar com o público atual, e não apenas com leitores fãs da obra.


Ainda assim, a sensação final é ambígua. Quem conhece bem o livro pode sentir que faltou aprofundar algumas camadas da história e dos personagens. Certos conflitos parecem resolvidos com rapidez, e parte da complexidade emocional acaba simplificada. Por outro lado, quem assistir buscando um romance intenso e trágico provavelmente sairá satisfeito.

É um filme esteticamente poderoso, conduzido por boas atuações e por uma direção segura de sua proposta. Deve reacender o interesse pelo clássico de Emily Brontë e certamente vai gerar debate. No fim, é uma adaptação que encanta pelos olhos e pela atmosfera, mas deixa um leve gosto melancólico — como se, em meio a tanta beleza, ainda houvesse algo essencial que poderia ter sido mais explorado.

09/02/2026

Crítica | All You Need Is Kill


A nova adaptação animada de All You Need Is Kill chega com uma proposta diferente do que muitos poderiam esperar. Em vez de priorizar a ação frenética e o espetáculo visual, o filme aposta em um tom mais intimista e reflexivo, transformando a conhecida história do loop temporal em algo mais pessoal e contemplativo.

Na trama, acompanhamos Rita, uma voluntaria que ajuda a reconstrução do japão após o aparecimento do Darol, uma misteriosa entidade vinda do espaço que passou a ameaçar a humanidade. Em meio a esse cenário caótico, ela se vê presa em um estranho ciclo no qual revive o mesmo dia repetidas vezes, sempre enfrentando as consequências dessa força desconhecida. A partir dessa premissa simples, o filme constrói uma jornada de aprendizado, tentativa e erro, e busca por uma saída para esse ciclo infinito.


Logo de início, a obra chama atenção pela estética. A animação é muito bonita, com um estilo próprio, quase artesanal em alguns momentos, que transmite uma sensação de proximidade com a protagonista. Não é um visual grandioso no sentido tradicional, mas sim delicado e expressivo, combinando perfeitamente com o clima mais introspectivo da narrativa.

A trilha sonora acompanha bem essa proposta. Sem exageros, ela ajuda a construir a atmosfera melancólica e repetitiva do cotidiano de Rita, reforçando a ideia central do filme: a sensação de estar preso em um ciclo sem fim. E é justamente aí que mora uma das reflexões mais interessantes da obra. Mesmo falando de monstros e ficção científica, a história faz um paralelo claro com o nosso próprio dia a dia. Será que, de certa forma, também não vivemos sempre o mesmo dia?

O roteiro opta por um ritmo mais ágil na descoberta do que está acontecendo, o que mantém o filme dinâmico, mas também deixa a impressão de que o conceito do loop poderia ter sido explorado com um pouco mais de profundidade. Ainda assim, a narrativa funciona bem ao mostrar o amadurecimento da personagem e a forma como ela aprende, evolui e tenta encontrar um sentido em meio à repetição constante.


A dinâmica entre os personagens é outro ponto positivo. O encontro de Rita com Keiji traz leveza e até um toque de humor para a história, equilibrando o clima tenso com momentos mais humanos. Essa relação dá coração ao filme e impede que ele se torne apenas mais uma ficção científica sobre viagens no tempo.

Mesmo com algumas soluções apressadas e certas ideias que mereciam mais desenvolvimento, a animação cumpre o que promete. É envolvente, emocional e visualmente marcante. Não tenta ser um grande épico, e sim uma história sobre persistência, escolhas e sobre o peso e o valor do amanhã.

Para quem conhece a obra original ou o filme No Limite do Amanhã, essa versão animada oferece uma experiência mais sensível e menos explosiva, focada muito mais nos sentimentos do que nas batalhas.

No fim, “All You Need Is Kill” funciona como um lembrete simples e eficaz: mesmo quando tudo parece se repetir, sempre existe a chance de fazer diferente no próximo dia.

05/02/2026

CRÍTICA | O SOM DA MORTE


O som da morte se insere com conforto no território do terror, ao resgatar uma premissa clássica e revesti-la de uma mitologia simples, eficiente e visualmente marcante. A narrativa acompanha Chrys, uma adolescente recém chegada a uma pequena cidade após um passado nebuloso, que encontra em seu novo colégio um objeto ancestral capaz de acelerar o destino de quem ousa ouvi-lo. A partir desse ponto, o filme estabelece regras claras e implacáveis, apostando menos em reviravoltas morais e mais na inexorabilidade da morte como força narrativa central, o que confere ao longa uma identidade direta e funcional dentro do gênero.

Dirigido por Corin Hardy, o filme assume sem pudor suas influências, dialogando abertamente com o terror adolescente dos anos 1990 e 2000 e com obras centradas em objetos amaldiçoados. Ainda assim, encontra certo frescor ao combinar essa tradição com uma lógica próxima à de Premonição, em que o destino não é evitado, apenas antecipado. Essa escolha torna a experiência mais cruel e menos esperançosa, já que não há justiça ou redenção possível, apenas a constatação de que ouvir o apito é selar o próprio fim. A mitologia do objeto é construída com clareza e nunca se contradiz, o que ajuda a sustentar a tensão ao longo do filme. 


O elenco jovem cumpre bem seu papel, especialmente Dafne Keen e Sophie Nélisse, que estabelecem uma relação afetiva convincente e emocionalmente necessária em meio à carnificina. O romance queer entre as duas personagens surge de forma delicada, ainda que flerte com clichês, funcionando como um ponto de ancoragem emocional para o espectador. Keen entrega uma protagonista marcada pelo trauma e pela sensação constante de deslocamento, enquanto Nélisse oferece uma contraposição mais segura e pragmática, criando uma dinâmica que humaniza a narrativa. O restante do grupo assume arquétipos conhecidos do terror colegial, servindo mais como combustível para as mortes do que como personagens plenamente desenvolvidos. 

Visualmente, o filme se destaca pela iconografia do apito, tratado quase como um personagem próprio. Seu design sinistro e seus entalhes reforçam o caráter ritualístico da maldição, tornando o objeto memorável e facilmente associado ao imaginário do terror contemporâneo. As sequências de morte são outro ponto forte, com uso expressivo de efeitos práticos que remetem ao horror corporal clássico. Cada morte carrega uma identidade própria e cresce em brutalidade, contribuindo para uma experiência gráfica que certamente agradará aos fãs mais ávidos do gênero.

A ambientação no período de Halloween adiciona uma camada extra de atmosfera, com cenários repletos de símbolos sazonais que reforçam o clima outonal e nostálgico. Essa escolha estética aproxima o filme de uma sensação atemporal, como se estivesse preso a uma era específica do terror, o que dialoga bem com suas referências assumidas. Em contrapartida, a trilha sonora eletrônica em alguns momentos soa deslocada e enfraquece cenas que poderiam ser mais impactantes, quebrando parcialmente a imersão construída pela direção. 


Narrativamente, “O Som da Morte” não se propõe a reinventar o gênero nem a aprofundar excessivamente seus personagens. Seu foco está na ideia central e na execução das mortes, o que torna a experiência previsível em certos momentos, mas ainda assim eficaz. A ausência de um comentário metalinguístico mais elaborado pode frustrar quem busca algo além da fórmula, porém o filme compensa com ritmo, criatividade visual e um conceito sólido o suficiente para sustentar o interesse.

Por fim, o longa se mostra consciente de suas limitações e confortável dentro delas. A cena pós créditos amplia o escopo da história e deixa clara a intenção de expansão do universo apresentado, sugerindo uma possível franquia. “O Som da Morte” é um terror competente, que oferece exatamente o que promete: sustos, mortes inventivas e uma mitologia simples, porém funcional. Pode não ser memorável em termos dramáticos, mas cumpre com eficiência seu papel como entretenimento sombrio e divertido, especialmente para quem aprecia o terror clássico com uma roupagem contemporânea.

02/02/2026

Crítica | Destruição Final 2

 

Destruição Final 2 surge como uma continuação cuja própria existência já levanta dúvidas. O primeiro filme, lançado em meio à pandemia, surpreendeu por conseguir extrair algum peso emocional de uma premissa bastante conhecida no cinema, o desastre. Mesmo com exageros narrativos e um desfecho dominado por efeitos especiais, havia ali um esforço claro em retratar pessoas comuns reagindo ao colapso do mundo, e Gerard Butler, contra todas as expectativas, funcionava como um protagonista minimamente empático. A história se encerrava de forma suficientemente conclusiva, o que tornava uma sequência algo desnecessário desde o início

Ainda assim, impulsionado pelo relativo sucesso junto ao público, o segundo filme opta por ampliar o escopo da narrativa, deslocando a ação do confinamento nos bunkers da Groenlândia para uma jornada errante por uma Europa devastada. Cinco anos após o impacto do cometa, John Garrity, sua esposa Allison e o filho adolescente Nathan continuam sobrevivendo em condições precárias, até que a destruição definitiva do complexo subterrâneo os força a partir em busca de um suposto refúgio localizado em uma cratera no sul da França. A ideia de migração global em um planeta à beira do colapso até carrega potencial simbólico, mas o filme raramente explora esse conceito de forma consistente ou profunda.


A partir do momento em que os personagens deixam a Groenlândia, o longa assume a forma de um road movie pós apocalíptico excessivamente familiar. O roteiro recicla situações e imagens já vistas à exaustão em obras como “Filhos da Esperança”, “A Estrada” e produções televisivas sobre mundos devastados. Soldados hostis, saqueadores genéricos, travessias perigosas e encontros ocasionais com pessoas bondosas surgem de maneira mecânica, sem tempo ou interesse em desenvolver relações humanas minimamente complexas. Personagens secundários são introduzidos apenas para cumprir funções dramáticas imediatas e logo descartados, o que torna qualquer tentativa de impacto emocional previsível e pouco eficaz.

Ao contrário do filme original, no qual os conflitos familiares davam algum dinamismo à narrativa, aqui a família Garrity se reduz a um bloco homogêneo de sobreviventes resilientes, quase sempre reagindo de forma automática aos perigos ao redor. Há tentativas pontuais de inserir dramas internos, especialmente envolvendo o amadurecimento de Nathan, mas essas ideias nunca são levadas adiante com convicção. O resultado é um filme que se leva excessivamente a sério, apostando em um sentimentalismo insistente que não encontra respaldo na construção dos personagens. 

Tecnicamente, o longa alterna entre momentos competentes e outros claramente limitados pelo orçamento. Algumas paisagens abertas conseguem sugerir a escala da devastação global, mas muitas cenas de ação se resolvem em espaços apertados, tiroteios genéricos e estruturas improvisadas pouco convincentes. Sequências que deveriam ser tensas acabam soando artificiais, como a travessia de pontes precárias ou o cruzamento do “Canal da Mancha” seco, ideias visualmente interessantes que carecem de impacto dramático real. A sensação constante é a de um filme que tenta parecer maior e mais ambicioso do que realmente é. 


Gerard Butler continua sendo o principal ponto de ancoragem da produção. Seu carisma desgastado de herói de meia idade ainda garante certa credibilidade ao personagem, embora aqui ele seja empurrado para um registro mais melodramático do que o necessário. Morena Baccarin cumpre sua função de apoio, mas o roteiro pouco faz para aprofundar sua personagem, que permanece à margem das decisões mais relevantes. A química entre os protagonistas, que ajudava o primeiro filme a funcionar, aqui se dilui em meio a uma narrativa excessivamente funcional.

Destruição Final 2 evidencia justamente o que torna tantas sequências problemáticas. Ao tentar expandir uma história que já havia encontrado seu ponto final, o filme perde o pouco de singularidade que seu antecessor possuía e se transforma em mais um exemplar genérico do cinema pós apocalíptico. Há momentos de tensão e alguma energia dispersa ao longo da jornada, o que garante um nível básico de entretenimento, mas nada que justifique plenamente o retorno a esse universo. Trata-se de um filme assistível, porém dispensável, que reforça mais a força ocasional do primeiro longa do que a necessidade real de sua continuação.

Crítica | (Des)controle



(Des)controle se apresenta como uma das obras mais sensíveis e relevantes do cinema brasileiro recente ao abordar o alcoolismo a partir de uma perspectiva íntima, cotidiana e profundamente humana. Inspirado em histórias reais, o filme dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm constrói uma narrativa que transita com naturalidade entre o drama e a comédia, flertando por vezes com o absurdo sem jamais perder o vínculo com a realidade. Em um momento especialmente fértil do cinema nacional, a obra ainda corre o risco de ser subestimada por um preconceito persistente contra produções brasileiras, apesar de reunir qualidades que a colocam lado a lado com alguns dos títulos mais celebrados dos últimos anos.

A trama acompanha Kátia Klein, interpretada por Carolina Dieckmann, uma escritora de livros infantis que mantém a sobriedade há quinze anos, mas se vê pressionada por uma soma sufocante de responsabilidades profissionais, familiares e emocionais. Mãe de dois filhos, responsável por praticamente toda a gestão da casa e da própria carreira, Kátia enfrenta um bloqueio criativo que funciona como gatilho para uma recaída. O roteiro transforma essa queda em um percurso emocional complexo, no qual o alívio inicial proporcionado pelo álcool rapidamente se converte em perda de controle, culpa e autossabotagem.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é a materialização simbólica do conflito interno da protagonista. Carolina Dieckmann interpreta duas facetas da mesma mulher, Kat e Vânia, representando luz e sombra, controle e impulso, sobriedade e compulsão. Essa escolha narrativa dialoga com sérias questões sociais, evocando reflexões sobre identidade, repressão e desejo. A presença de Vânia não apenas intensifica a tensão psicológica, como também torna visível aquilo que muitas vezes permanece invisível em narrativas sobre dependência, o embate constante entre quem a pessoa é e quem ela tenta ser.


Desde os primeiros minutos, a linguagem audiovisual contribui para mergulhar o espectador no estado emocional da protagonista. A montagem inicial é caótica e acelerada, traduzindo a ansiedade de uma mulher à beira do colapso. Quando o álcool retorna à sua vida, o filme altera sutilmente sua atmosfera, como se o mundo ao redor também se transformasse. Essa mudança gradual, quase sedutora, torna a queda ainda mais dolorosa de acompanhar. O espectador passa a observar, impotente, o avanço da autodestruição, como quem assiste a um desastre anunciado sem poder intervir. 

O filme se recusa a oferecer soluções fáceis ou discursos moralizantes. Ao tratar do alcoolismo como uma luta diária, contínua e cheia de recaídas possíveis, (Des)controle assume um tom honesto e responsável. Não há glamour na dependência, tampouco redenções mágicas. O que existe é um processo doloroso, sustentado por diálogos diretos, relações imperfeitas e a necessidade constante de apoio e empatia. Mesmo o desfecho, embora carregado de esperança, evita o sentimentalismo excessivo e preserva a complexidade da experiência vivida pela personagem. 

No campo estético, a produção aposta em uma fotografia limpa e cores saturadas que beiram o artificial, mas nunca rompem com a verossimilhança. A direção de arte e o figurino reforçam a dualidade central da narrativa, especialmente no contraste cromático associado às diferentes faces de Kátia e na construção visual de Vânia como uma figura sedutora e perigosa. Essa estilização controlada contribui para o tom quase alegórico do filme, sem comprometer sua força realista.


As atuações são outro ponto alto. Carolina Dieckmann entrega uma das performances mais marcantes de sua carreira, equilibrando vulnerabilidade, exaustão, ironia e desespero. Sua interpretação evita caricaturas e transmite com verdade a experiência de uma mulher sobrecarregada que encontra no álcool uma falsa promessa de alívio. O elenco de apoio, com destaque para Júlia Rabello, Caco Ciocler e Irene Ravache, contribui para a densidade emocional da narrativa, construindo relações críveis e fundamentais para o desenvolvimento da protagonista.

Embora o filme apresente pequenas irregularidades de ritmo e momentos em que a narrativa se aproxima de caminhos mais convencionais, esses aspectos não diminuem seu impacto geral. Pelo contrário, reforçam seu compromisso em dialogar com um público amplo sem subestimar sua inteligência. (Des)controle é um filme que entretém, provoca reflexão e convida à empatia, tratando um tema delicado com coragem, sensibilidade e respeito.