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Crítica | O Drama

“O Drama” é o tipo de filme que se apresenta como uma provocação sofisticada, mas que encontra suas maiores forças justamente quando abraça o desconforto mais cru e menos elaborado. Dirigido por Kristoffer Borgli, o longa parte de uma premissa sedutora e inquietante, transformando o território aparentemente leve da comédia romântica em um campo minado psicológico, onde segredos íntimos têm o poder de corroer qualquer ideal de amor perfeito. A relação entre Charlie, vivido por Robert Pattinson, e Emma, interpretada por Zendaya, nasce envolta em charme e acaso, mas desde o início carrega um ruído estranho, quase imperceptível, que anuncia o colapso inevitável.

Borgli demonstra habilidade ao manipular linguagem e atmosfera, utilizando recursos sonoros e visuais que deslocam o espectador do conforto típico das narrativas românticas. O encontro inicial do casal, que poderia ser apenas mais um clichê encantador, é filmado como um episódio de tensão latente, sugerindo que algo está profundamente desalinhado por trás da superfície. Essa escolha estética aproxima o filme de tradições do cinema europeu mais ácido, evocando ecos de Ruben Östlund e Thomas Vinterberg, mas sem jamais alcançar a mesma precisão cirúrgica desses autores ao dissecar relações humanas. 


O ponto de virada, quando Emma revela seu passado perturbador durante um jantar entre amigos, é ao mesmo tempo o grande trunfo e a principal fragilidade do filme. A confissão é chocante, concebida para desestabilizar tanto os personagens quanto o público, mas sua construção flerta com o absurdo de maneira ambígua. O roteiro parece indeciso entre tratar a revelação como sátira de mau gosto ou como elemento genuíno de suspense psicológico. Essa hesitação compromete o impacto dramático, pois o filme exige que levemos a sério uma ideia que ele próprio não sustenta plenamente. 

Ainda assim, há um fascínio inegável na maneira como “O Drama” explora a paranoia crescente de Charlie. Pattinson, especialista em personagens emocionalmente instáveis, transforma o protagonista em um retrato quase caricatural de ansiedade contemporânea. Seu desempenho é nervoso, errático e por vezes hipnótico, embora o roteiro não lhe ofereça um arco emocional consistente. Charlie não evolui, apenas se deteriora, e essa deterioração carece de profundidade reflexiva, funcionando mais como mecanismo narrativo do que como investigação psicológica real.

Zendaya, por sua vez, entrega uma atuação contida e silenciosa, sugerindo camadas de fragilidade e ambiguidade que o texto raramente explora com a devida complexidade. Sua presença em cena é espetacular, mas o filme parece incapaz de compreender plenamente as implicações de sua personagem, especialmente quando tangencia questões de gênero e raça. Há uma oportunidade clara de aprofundamento que Borgli evita, como se temesse levar sua própria provocação às últimas consequências. 


Do ponto de vista formal, o filme oscila entre momentos de inventividade e excessos estilísticos. Os cortes abruptos, a fragmentação temporal e as distorções sensoriais criam uma atmosfera de instabilidade interessante no início, mas perdem força à medida que se tornam repetitivos. O que começa como linguagem expressiva termina como afetação, reforçando a sensação de que o filme está mais interessado em parecer provocador do que em realmente sustentar suas ideias.

No fim, “O Drama” cumpre parcialmente o que promete no título. Há tensão, há desconforto e há um certo prazer perverso em observar o desmoronamento emocional de seus personagens. No entanto, a obra permanece presa em sua própria superficialidade, incapaz de transformar sua premissa provocativa em uma reflexão mais profunda sobre amor, moralidade e identidade. É um filme que instiga, mas não permanece, que provoca, mas não aprofunda. E talvez seja justamente essa contradição que o define com mais precisão.

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