Crítica | Pinóquio
Chamado de Pinóquio no Brasil, o filme carrega, na verdade, outra identidade: seu título original é Buratino, personagem da literatura russa criado por Aleksei Tolstoi. Essa mudança de nome ajuda a situar o público, mas esconde o fato de que estamos diante de uma releitura baseada em uma versão bem diferente e mais ousada do clássico.
O filme parte de uma base extremamente conhecida, mas encontra frescor justamente ao se apoiar em The Golden Key, or the Adventures of Buratino. Em vez de revisitar apenas os elementos tradicionais da fábula, o filme assume uma identidade própria ao mergulhar em uma abordagem teatral, estética e simbólica, que o diferencia imediatamente de outras adaptações do personagem "Pinóquio".
Essa teatralidade não está apenas na forma, mas também no próprio roteiro. A decisão de transformar o protagonista em um artista moldado dentro do teatro de Karabas Barabas dá unidade à narrativa e justifica suas escolhas visuais. O filme se comporta como um espetáculo encenado, com cenários e enquadramentos que evocam o palco, mas sem abrir mão de uma linguagem cinematográfica ambiciosa. É uma proposta estética clara, bem executada e coerente com a história que se propõe a contar.
A trajetória do personagem é um dos aspectos mais interessantes da adaptação. Aqui, a narrativa se afasta do desejo clássico de “se tornar humano” para explorar temas como fama, exploração e identidade. Ao longo do filme, Pinóquio se torna um fenômeno no teatro, ganha o mundo com apresentações e enriquece seu manipulador, enquanto a figura de Geppetto permanece como uma memória afetiva cada vez mais distante. Esse conflito ganha peso quando o filme revela a violência por trás do espetáculo, mostrando que os outros bonecos vivem sob ameaça constante, impedidos de deixar o teatro. É nesse momento que o protagonista finalmente compreende sua própria condição e rompe com esse ciclo, buscando retornar para Geppetto não mais como parte de um espetáculo, mas como alguém que deseja, de fato, ocupar o lugar de filho.
Visualmente, o filme se destaca principalmente pelo figurino, que é detalhado, expressivo e fundamental para sustentar sua identidade estética. Há um cuidado evidente na composição de cada cena, reforçando o caráter teatral da obra. Em contrapartida, a animação de Pinóquio, embora funcional, não atinge o mesmo nível de refinamento. Em alguns momentos, essa diferença cria um leve estranhamento, ainda que não comprometa a experiência como um todo.
A trilha sonora e a mixagem de som são pontos altos da produção. O uso de elementos sonoros, como o rangido da madeira, contribui para dar vida ao personagem e aumentar a imersão. As músicas dialogam bem com a proposta do filme, reforçando sua estrutura de espetáculo e ajudando a sustentar o ritmo narrativo.
O roteiro também encontra espaço para inserir comentários contemporâneos, como a inocência infantil diante da maldade adulta e pequenas inserções de diversidade, exemplificadas pela presença de Pinóquio em um ambiente escolar comum. Esses elementos surgem de forma natural, sem destoar do universo construído.
Ainda assim, o maior desafio do filme não está em sua execução, mas na forma como será recebido. Por se tratar de uma história já amplamente explorada no cinema, existe um cansaço natural do público que pode afastar parte da audiência. É uma reação compreensível, mas também injusta, já que esta versão propõe uma leitura diferente, com identidade e intenção claras.
O filme é ousado e esteticamente marcante, utilizando o teatro como linguagem para contar uma história sobre controle, identidade e amadurecimento. Mesmo com pequenas limitações técnicas, entrega uma experiência singular dentro de um universo que muitos acreditam já estar esgotado, mas que aqui encontra uma nova forma de se expressar.



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