Crítica | (Des)controle
A trama acompanha Kátia Klein, interpretada por Carolina Dieckmann, uma escritora de livros infantis que mantém a sobriedade há quinze anos, mas se vê pressionada por uma soma sufocante de responsabilidades profissionais, familiares e emocionais. Mãe de dois filhos, responsável por praticamente toda a gestão da casa e da própria carreira, Kátia enfrenta um bloqueio criativo que funciona como gatilho para uma recaída. O roteiro transforma essa queda em um percurso emocional complexo, no qual o alívio inicial proporcionado pelo álcool rapidamente se converte em perda de controle, culpa e autossabotagem.
Um dos aspectos mais interessantes do filme é a materialização simbólica do conflito interno da protagonista. Carolina Dieckmann interpreta duas facetas da mesma mulher, Kat e Vânia, representando luz e sombra, controle e impulso, sobriedade e compulsão. Essa escolha narrativa dialoga com sérias questões sociais, evocando reflexões sobre identidade, repressão e desejo. A presença de Vânia não apenas intensifica a tensão psicológica, como também torna visível aquilo que muitas vezes permanece invisível em narrativas sobre dependência, o embate constante entre quem a pessoa é e quem ela tenta ser.
O filme se recusa a oferecer soluções fáceis ou discursos moralizantes. Ao tratar do alcoolismo como uma luta diária, contínua e cheia de recaídas possíveis, (Des)controle assume um tom honesto e responsável. Não há glamour na dependência, tampouco redenções mágicas. O que existe é um processo doloroso, sustentado por diálogos diretos, relações imperfeitas e a necessidade constante de apoio e empatia. Mesmo o desfecho, embora carregado de esperança, evita o sentimentalismo excessivo e preserva a complexidade da experiência vivida pela personagem.
No campo estético, a produção aposta em uma fotografia limpa e cores saturadas que beiram o artificial, mas nunca rompem com a verossimilhança. A direção de arte e o figurino reforçam a dualidade central da narrativa, especialmente no contraste cromático associado às diferentes faces de Kátia e na construção visual de Vânia como uma figura sedutora e perigosa. Essa estilização controlada contribui para o tom quase alegórico do filme, sem comprometer sua força realista.
Embora o filme apresente pequenas irregularidades de ritmo e momentos em que a narrativa se aproxima de caminhos mais convencionais, esses aspectos não diminuem seu impacto geral. Pelo contrário, reforçam seu compromisso em dialogar com um público amplo sem subestimar sua inteligência. (Des)controle é um filme que entretém, provoca reflexão e convida à empatia, tratando um tema delicado com coragem, sensibilidade e respeito.



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