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Crítica | (Des)controle



(Des)controle se apresenta como uma das obras mais sensíveis e relevantes do cinema brasileiro recente ao abordar o alcoolismo a partir de uma perspectiva íntima, cotidiana e profundamente humana. Inspirado em histórias reais, o filme dirigido por Rosane Svartman e Carol Minêm constrói uma narrativa que transita com naturalidade entre o drama e a comédia, flertando por vezes com o absurdo sem jamais perder o vínculo com a realidade. Em um momento especialmente fértil do cinema nacional, a obra ainda corre o risco de ser subestimada por um preconceito persistente contra produções brasileiras, apesar de reunir qualidades que a colocam lado a lado com alguns dos títulos mais celebrados dos últimos anos.

A trama acompanha Kátia Klein, interpretada por Carolina Dieckmann, uma escritora de livros infantis que mantém a sobriedade há quinze anos, mas se vê pressionada por uma soma sufocante de responsabilidades profissionais, familiares e emocionais. Mãe de dois filhos, responsável por praticamente toda a gestão da casa e da própria carreira, Kátia enfrenta um bloqueio criativo que funciona como gatilho para uma recaída. O roteiro transforma essa queda em um percurso emocional complexo, no qual o alívio inicial proporcionado pelo álcool rapidamente se converte em perda de controle, culpa e autossabotagem.

Um dos aspectos mais interessantes do filme é a materialização simbólica do conflito interno da protagonista. Carolina Dieckmann interpreta duas facetas da mesma mulher, Kat e Vânia, representando luz e sombra, controle e impulso, sobriedade e compulsão. Essa escolha narrativa dialoga com sérias questões sociais, evocando reflexões sobre identidade, repressão e desejo. A presença de Vânia não apenas intensifica a tensão psicológica, como também torna visível aquilo que muitas vezes permanece invisível em narrativas sobre dependência, o embate constante entre quem a pessoa é e quem ela tenta ser.


Desde os primeiros minutos, a linguagem audiovisual contribui para mergulhar o espectador no estado emocional da protagonista. A montagem inicial é caótica e acelerada, traduzindo a ansiedade de uma mulher à beira do colapso. Quando o álcool retorna à sua vida, o filme altera sutilmente sua atmosfera, como se o mundo ao redor também se transformasse. Essa mudança gradual, quase sedutora, torna a queda ainda mais dolorosa de acompanhar. O espectador passa a observar, impotente, o avanço da autodestruição, como quem assiste a um desastre anunciado sem poder intervir. 

O filme se recusa a oferecer soluções fáceis ou discursos moralizantes. Ao tratar do alcoolismo como uma luta diária, contínua e cheia de recaídas possíveis, (Des)controle assume um tom honesto e responsável. Não há glamour na dependência, tampouco redenções mágicas. O que existe é um processo doloroso, sustentado por diálogos diretos, relações imperfeitas e a necessidade constante de apoio e empatia. Mesmo o desfecho, embora carregado de esperança, evita o sentimentalismo excessivo e preserva a complexidade da experiência vivida pela personagem. 

No campo estético, a produção aposta em uma fotografia limpa e cores saturadas que beiram o artificial, mas nunca rompem com a verossimilhança. A direção de arte e o figurino reforçam a dualidade central da narrativa, especialmente no contraste cromático associado às diferentes faces de Kátia e na construção visual de Vânia como uma figura sedutora e perigosa. Essa estilização controlada contribui para o tom quase alegórico do filme, sem comprometer sua força realista.


As atuações são outro ponto alto. Carolina Dieckmann entrega uma das performances mais marcantes de sua carreira, equilibrando vulnerabilidade, exaustão, ironia e desespero. Sua interpretação evita caricaturas e transmite com verdade a experiência de uma mulher sobrecarregada que encontra no álcool uma falsa promessa de alívio. O elenco de apoio, com destaque para Júlia Rabello, Caco Ciocler e Irene Ravache, contribui para a densidade emocional da narrativa, construindo relações críveis e fundamentais para o desenvolvimento da protagonista.

Embora o filme apresente pequenas irregularidades de ritmo e momentos em que a narrativa se aproxima de caminhos mais convencionais, esses aspectos não diminuem seu impacto geral. Pelo contrário, reforçam seu compromisso em dialogar com um público amplo sem subestimar sua inteligência. (Des)controle é um filme que entretém, provoca reflexão e convida à empatia, tratando um tema delicado com coragem, sensibilidade e respeito.

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