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Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, dirigido por Chloé Zhao, confirma a vocação da cineasta para transformar o cotidiano em experiência sensorial e espiritual. Assim como em seus trabalhos anteriores, Zhao encontra no contato com a natureza uma via para acessar emoções profundas, fazendo com que o simples gesto humano se torne carregado de significado. Neste filme, essa sensibilidade é aplicada a uma das perdas mais dolorosas possíveis, a morte de um filho, e ao modo como essa ausência reverbera na vida, no amor e na criação artística de William Shakespeare e, sobretudo, de sua esposa Agnes. 

Desde os primeiros minutos, o longa se impõe menos como uma narrativa tradicional e mais como uma vivência sensorial. A fotografia de Lukasz Zal, aliada à trilha de Max Richter e ao desenho de som de Johnnie Burn, constrói um universo florestal denso, quase hipnótico, onde o natural e o sobrenatural parecem coexistir sem fronteiras claras. É nesse espaço que Agnes surge como figura central, profundamente conectada à terra, às árvores e aos ciclos da vida. Jessie Buckley entrega uma atuação de intensidade impressionante, criando uma personagem que parece emanar energia vital e espiritualidade, como se fosse parte orgânica da paisagem que a cerca. 

A relação entre Agnes e Will, interpretado por Paul Mescal, é apresentada com leveza e intimidade, marcada por brincadeiras, cumplicidade e uma liberdade afetiva que se destaca no contexto histórico retratado. A construção dessa família, com a chegada dos filhos Susanna e dos gêmeos Hamnet e Judith, ocupa boa parte do filme e revela o interesse de Zhao pelo ordinário, pelos pequenos rituais da vida doméstica. Esses momentos, curiosamente, são mais atraentes e emocionalmente eficazes do que a tragédia anunciada, pois criam um vínculo genuíno entre espectador e personagens.

Quando a morte de Hamnet acontece, o filme abandona qualquer sutileza e mergulha de forma frontal no luto. A dor vivida por Agnes e Will é encenada com intensidade extrema, quase sufocante, e Zhao escolhe permanecer nesse sofrimento por um tempo prolongado. Embora seja impossível negar a força das atuações, especialmente a de Buckley, há momentos em que essa insistência beira o excesso e rompe a imersão, transformando a experiência em algo próximo do voyeurismo emocional. A intenção é clara, mostrar que a perda de um filho é uma ferida irreparável, mas a forma escolhida nem sempre encontra o equilíbrio entre impacto e sensibilidade. 

O elo entre a morte de Hamnet e a criação de Hamlet é o eixo conceitual do filme, sugerindo a arte como espaço de elaboração do luto. Em alguns momentos, essa conexão surge de maneira poderosa, sobretudo na encenação da peça, que oferece um dos pontos altos do longa. A escolha de Noah Jupe para interpretar Hamlet estabelece um diálogo simbólico com o filho perdido, reforçando a ideia do que poderia ter sido. Há imagens de grande força poética nessa sequência, incluindo uma tomada aérea que sintetiza o poder transformador do teatro e ecoa visualmente a presença de Agnes na floresta no início do filme. 

Ainda assim, nem todas as soluções são igualmente bem-sucedidas. Certas referências diretas à obra de Shakespeare soam óbvias demais, como se o filme, por vezes, desconfiasse da capacidade do espectador de estabelecer suas próprias conexões. Da mesma forma, o uso recorrente de uma trilha musical já amplamente associada a outros dramas acaba enfraquecendo o impacto emocional em momentos-chave, quebrando a singularidade da experiência. 


Ao adaptar o romance de Maggie O’Farrell, o filme preserva a centralidade de Agnes como coração da narrativa, deslocando Shakespeare para uma posição quase periférica. Essa escolha é acertada e coerente, pois transforma a história em um retrato universal do luto materno e da tentativa de seguir vivendo após uma perda irreparável. A ausência quase total do contexto mais amplo da peste, embora compreensível do ponto de vista narrativo, também esvazia um pouco o diálogo histórico que poderia enriquecer ainda mais o filme, especialmente para um público contemporâneo marcado por experiências coletivas de perda. 

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é, acima de tudo, um filme sobre dor, memória e criação. Nem sempre encontra o tom ideal e, em alguns momentos, cede ao sentimentalismo excessivo, mas ainda assim carrega uma beleza genuína e imagens de forte poder simbólico. Sustentado por uma atuação extraordinária de Jessie Buckley e pela sensibilidade estética de Chloé Zhao, o filme propõe que a arte não nasce apenas da genialidade, mas também da ausência, do silêncio e da tentativa humana de dar sentido ao que parece insuportável. É uma obra imperfeita, mas profundamente honesta em sua busca por compreender como atravessar a floresta escura do luto.

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