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CRÍTICA | MARTY SUPREME


Marty Supreme é um filme que já nasce inquieto, decidido a desestabilizar o espectador desde os primeiros minutos. Ambientado nos anos 50, mas filmado com a pulsação nervosa do cinema autoral dos anos 70 e embalado por uma trilha sonora anacrônica e impecável dos anos 80, o longa de Josh Safdie cria um deslocamento temporal deliberado que funciona como espelho psicológico de seu protagonista. Nada está exatamente no lugar certo, nem a época, nem o tom, nem o próprio Marty Mauser, um homem que vive como se estivesse sempre adiantado demais para o mundo ao seu redor. 

Livremente inspirado em uma figura real do tênis de mesa, Marty é interpretado por Timothée Chalamet na atuação mais ousada e marcante de sua carreira. O ator encarna um campeão autoproclamado de pingue-pongue que se recusa a aceitar os limites impostos pela realidade. Trabalhando em uma sapataria no Lower East Side, cercado por dívidas, expectativas frustradas e relações instáveis, Marty acredita cegamente que nasceu para algo maior. Essa fé absoluta em si mesmo, mais do que seu talento esportivo, é o verdadeiro motor do filme. Safdie constrói um personagem que confunde confiança com direito adquirido e ambição com licença moral para ultrapassar qualquer fronteira.

A narrativa acompanha a escalada caótica de Marty em direção a um reconhecimento que parece sempre escapar por entre seus dedos. Cada tentativa de se afirmar resulta em consequências maiores, mais perigosas e mais moralmente comprometedoras. O filme transforma pequenas infrações em crimes graves com uma fluidez perturbadora, como se a lógica interna de Marty justificasse qualquer ato desde que o objetivo final seja a vitória. Safdie não suaviza esse processo nem oferece julgamentos fáceis, colocando o espectador em uma posição desconfortável, entre o fascínio e a repulsa.

Visualmente, “Marty Supreme” é um turbilhão. A fotografia de Darius Khondji imprime uma energia quase claustrofóbica, com enquadramentos inquietos e uma câmera que parece lutar para acompanhar o protagonista. A edição acelerada e precisa reforça a sensação de urgência constante, enquanto a trilha sonora de Daniel Lopatin, somada às escolhas musicais inesperadas, transforma o som em um elemento narrativo ativo. O uso de canções dos anos 80 em um contexto histórico incompatível não busca realismo, mas sim traduzir o estado mental de Marty, um sujeito que vive fora de sintonia com o tempo em que nasceu.

O elenco coadjuvante funciona como um contraponto essencial à voracidade do protagonista. Odessa A’zion confere complexidade a Rachel, evitando o estereótipo da companheira submissa e revelando uma mulher que compreende Marty talvez melhor do que ele próprio. Gwyneth Paltrow, como a estrela decadente Kay Stone, foge do clichê da celebridade em declínio e constrói uma personagem que também busca validação, ainda que em um registro mais silencioso e melancólico. Essas figuras femininas não existem apenas como satélites do ego masculino, mas como forças que expõem suas fragilidades e limites.

Um dos aspectos mais provocadores do filme é o debate em torno da simpatia do protagonista. Marty Mauser é arrogante, impulsivo, irresponsável e, em muitos momentos, moralmente indefensável. Ainda assim, o carisma de Chalamet e a energia do filme convidam o público a acompanhá-lo por mais de duas horas sem oferecer um conforto moral claro. Safdie parece interessado justamente nessa fricção, questionando a expectativa de que um personagem central precise ser admirável ou redimível. A inquietação gerada por Marty diz menos sobre o personagem em si e mais sobre nossa relação com o cinema e com as estrelas que o habitam.

Por trás do retrato individual, “Marty Supreme” também funciona como uma alegoria da mentalidade americana do pós-guerra, marcada por ambição desmedida, fé cega no sucesso e uma recusa sistemática em reconhecer limites. O pingue-pongue, esporte tratado como irrelevante pelos outros personagens, torna-se um símbolo perfeito dessa obsessão, um campo onde Marty projeta seu desejo de dominação global. Ele não quer apenas vencer, quer ser incontestável, reconhecido, temido e lembrado.

Por fim, “Marty Supreme” não oferece conforto nem lições fáceis. É um filme exaustivo, estimulante e, por vezes, profundamente irritante, assim como seu protagonista. Josh Safdie entrega uma obra que se recusa à homogeneização do cinema contemporâneo, apostando em um personagem desagradável, mas hipnotizante, para refletir sobre ego, poder e identidade. Gostar de Marty não é obrigatório, mas ignorá-lo é impossível. É justamente nessa tensão que o filme encontra sua força e sua relevância.

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