CRÍTICA | O SOM DA MORTE
O som da morte se insere com conforto no território do terror, ao resgatar uma premissa clássica e revesti-la de uma mitologia simples, eficiente e visualmente marcante. A narrativa acompanha Chrys, uma adolescente recém chegada a uma pequena cidade após um passado nebuloso, que encontra em seu novo colégio um objeto ancestral capaz de acelerar o destino de quem ousa ouvi-lo. A partir desse ponto, o filme estabelece regras claras e implacáveis, apostando menos em reviravoltas morais e mais na inexorabilidade da morte como força narrativa central, o que confere ao longa uma identidade direta e funcional dentro do gênero.
Dirigido por Corin Hardy, o filme assume sem pudor suas influências, dialogando abertamente com o terror adolescente dos anos 1990 e 2000 e com obras centradas em objetos amaldiçoados. Ainda assim, encontra certo frescor ao combinar essa tradição com uma lógica próxima à de Premonição, em que o destino não é evitado, apenas antecipado. Essa escolha torna a experiência mais cruel e menos esperançosa, já que não há justiça ou redenção possível, apenas a constatação de que ouvir o apito é selar o próprio fim. A mitologia do objeto é construída com clareza e nunca se contradiz, o que ajuda a sustentar a tensão ao longo do filme.
O elenco jovem cumpre bem seu papel, especialmente Dafne Keen e Sophie Nélisse, que estabelecem uma relação afetiva convincente e emocionalmente necessária em meio à carnificina. O romance queer entre as duas personagens surge de forma delicada, ainda que flerte com clichês, funcionando como um ponto de ancoragem emocional para o espectador. Keen entrega uma protagonista marcada pelo trauma e pela sensação constante de deslocamento, enquanto Nélisse oferece uma contraposição mais segura e pragmática, criando uma dinâmica que humaniza a narrativa. O restante do grupo assume arquétipos conhecidos do terror colegial, servindo mais como combustível para as mortes do que como personagens plenamente desenvolvidos.
Visualmente, o filme se destaca pela iconografia do apito, tratado quase como um personagem próprio. Seu design sinistro e seus entalhes reforçam o caráter ritualístico da maldição, tornando o objeto memorável e facilmente associado ao imaginário do terror contemporâneo. As sequências de morte são outro ponto forte, com uso expressivo de efeitos práticos que remetem ao horror corporal clássico. Cada morte carrega uma identidade própria e cresce em brutalidade, contribuindo para uma experiência gráfica que certamente agradará aos fãs mais ávidos do gênero.
A ambientação no período de Halloween adiciona uma camada extra de atmosfera, com cenários repletos de símbolos sazonais que reforçam o clima outonal e nostálgico. Essa escolha estética aproxima o filme de uma sensação atemporal, como se estivesse preso a uma era específica do terror, o que dialoga bem com suas referências assumidas. Em contrapartida, a trilha sonora eletrônica em alguns momentos soa deslocada e enfraquece cenas que poderiam ser mais impactantes, quebrando parcialmente a imersão construída pela direção.
Por fim, o longa se mostra consciente de suas limitações e confortável dentro delas. A cena pós créditos amplia o escopo da história e deixa clara a intenção de expansão do universo apresentado, sugerindo uma possível franquia. “O Som da Morte” é um terror competente, que oferece exatamente o que promete: sustos, mortes inventivas e uma mitologia simples, porém funcional. Pode não ser memorável em termos dramáticos, mas cumpre com eficiência seu papel como entretenimento sombrio e divertido, especialmente para quem aprecia o terror clássico com uma roupagem contemporânea.



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