Crítica | O Afinador
O Afinador é daqueles thrillers que conquistam o espectador não apenas pela engenhosidade de sua premissa, mas pela maneira elegante como transforma uma condição física em motor dramático, suspense e capital humano. Em sua estreia na ficção, o documentarista Daniel Roher demonstra um controle surpreendente da narrativa ao construir uma história que mistura romance, crime, drama e tensão psicológica sem perder o equilíbrio. O resultado é um filme atraente, inteligente e emocionalmente acessível, sustentado por personagens carismáticos e uma atmosfera constantemente marcada pela vulnerabilidade.
A premissa é fascinante. Niki Wright, interpretado com enorme sensibilidade por Leo Woodall, possui ouvido absoluto e sofre de hiperacusia, uma condição que transforma sons cotidianos em experiências dolorosas. O que poderia ser apenas uma peculiaridade de personagem se torna a base de toda a construção dramática do filme. A audição extraordinária que o impede de viver normalmente também lhe concede uma habilidade improvável: a capacidade de abrir cofres ouvindo seus mecanismos internos. O roteiro explora essa ideia com criatividade suficiente para que o espectador aceite sem resistência uma premissa que, em mãos menos talentosas, poderia soar absurda.
O grande mérito do longa está em fazer com que a jornada de Niki seja tão interessante quanto os eventos que o cercam. Leo Woodall entrega uma atuação contida e extremamente eficiente, construindo um protagonista que oscila constantemente entre a confiança técnica e a insegurança emocional. Seu Niki é um homem isolado, tímido e marcado por limitações que o afastam das pessoas, mas que encontra no afeto, na amizade e até mesmo no perigo uma oportunidade de redefinir sua identidade. Woodall evita transformar o personagem em um herói convencional, optando por uma interpretação delicada que transmite fragilidade sem fragilizar sua força interior.
A relação entre Niki e Harry Horowitz constitui o coração emocional do filme. Dustin Hoffman, em um papel que parece feito sob medida para seu talento veterano, oferece uma presença calorosa, espirituosa e profundamente humana. Harry funciona simultaneamente como mentor, figura paterna e amigo, e os momentos compartilhados pelos dois possuem uma naturalidade encantadora. As conversas dentro da velha van, os pequenos gestos de cumplicidade e a preocupação mútua criam uma dimensão afetiva que impede que o filme se transforme apenas em um exercício de suspense.
Quando a trama mergulha no universo do crime, o roteiro encontra um caminho interessante ao evitar antagonistas unidimensionais. Uri, interpretado por Lior Raz, surge como uma ameaça construída mais pela manipulação psicológica do que pela violência explícita. Sua capacidade de alternar cordialidade e intimidação cria um personagem imprevisível e inquietante, ampliando a tensão sempre que divide a cena com Niki. O suspense funciona justamente porque o perigo nunca parece completamente visível, permanecendo sempre à espreita.
Ao mesmo tempo, a presença de Ruthie acrescenta uma camada romântica que enriquece a narrativa. Havana Rose Liu constrói uma personagem determinada, talentosa e independente, que não existe apenas para servir de interesse amoroso. Sua relação com Niki nasce de uma conexão genuína através da música, da sensibilidade artística e da admiração mútua. É uma dinâmica que traz leveza ao filme sem comprometer sua densidade dramática.
Tecnicamente, “O Afinador” encontra sua maior força no desenho de som. A hiperacusia de Niki não é apenas explicada ao espectador, ela é sentida. O trabalho sonoro conduz o público para dentro da experiência do protagonista, amplificando ruídos cotidianos e transformando pequenos sons em elementos de tensão quase insuportável. Essa escolha aproxima o espectador da angústia do personagem e demonstra uma rara compreensão de como a linguagem cinematográfica pode traduzir sensações físicas.
Nem tudo funciona perfeitamente. Em determinados momentos, o roteiro parece interessado demais em acumular reviravoltas e personagens secundários, especialmente quando surgem múltiplas organizações criminosas e subtramas que tornam a narrativa mais complexa do que o necessário. Algumas situações soam excessivamente convenientes e certas resoluções poderiam receber maior aprofundamento dramático. Ainda assim, esses tropeços não comprometem o conjunto porque a força dos personagens e das atuações mantém o envolvimento constante.
Daniel Roher realiza uma transição admirável do documentário para a ficção ao demonstrar habilidade para construir tensão, dirigir atores e desenvolver personagens emocionalmente convincentes. Seu olhar atento aos detalhes humanos impede que o filme se torne apenas um thriller sobre golpes e perseguições. Existe uma preocupação genuína em explorar temas como solidão, pertencimento, amizade, talento e responsabilidade moral.
O Afinador acaba se destacando justamente por aquilo que muitos thrillers contemporâneos esquecem: a importância de personagens pelos quais vale a pena torcer. Com uma premissa original, atuações excelentes e um uso brilhante do som como ferramenta narrativa, o filme transforma uma história de crimes e cofres em uma reflexão surpreendentemente tocante sobre pessoas tentando encontrar seu lugar em um mundo barulhento demais. É um suspense elegante, acessível e inteligente que confirma Leo Woodall como um protagonista de enorme potencial e revela Daniel Roher como um cineasta de ficção muito mais promissor do que se poderia imaginar.



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