Crítica | Supergirl
Depois de apresentar uma versão mais leve e otimista do Homem de Aço, a nova DC aposta em uma escolha ousada para expandir seu universo: contar a história de Kara Zor-El sem cair na armadilha do tradicional filme de origem. E é justamente aí que Supergirl acerta.
Dirigido por Craig Gillespie (Cruella), o longa entende que o público já sabe quem é a Supergirl. Em vez de gastar boa parte do tempo explicando seus poderes ou repetindo eventos que já conhecemos, o roteiro de Ana Nogueira utiliza o passado traumático de Kara como pano de fundo para construir uma aventura espacial simples, direta e extremamente eficiente.
A trama acompanha Kara (Milly Alcock) em uma jornada para salvar Krypto, seu fiel companheiro, após o supercão ser envenenado por um grupo de criminosos espaciais. No caminho, ela cruza com uma jovem que também busca os mesmos responsáveis, mas por um motivo muito mais pessoal: vingar a morte de seus pais. O que começa como uma parceria forçada evolui para uma jornada sobre luto, amadurecimento e escolhas.
Milly Alcock entrega uma protagonista carismática justamente porque não tenta parecer uma heroína perfeita. Sua Kara é impulsiva, cansada, sarcástica e muitas vezes parece não ter interesse algum em ser o símbolo de esperança que todos esperam. Ela quer salvar seu cachorro e seguir sua vida. E é justamente essa humanidade que torna a personagem tão fácil de gostar.
Curiosamente, a Supergirl aparece menos do que se imagina. O filme está muito mais interessado em explorar Kara Zor-El do que a heroína uniformizada. Ao longo da jornada, vemos uma jovem marcada por perdas descobrindo quem deseja ser, e não apenas qual símbolo deve representar.
Outro destaque está na direção de ação. Gillespie utiliza diversos planos-sequência e reduz a quantidade de cortes durante os confrontos, criando uma sensação de impacto e realidade rara em filmes do gênero. As lutas possuem peso, movimento e uma fluidez que ajuda a vender cada golpe e cada risco enfrentado pela protagonista.
Jason Momoa surge como Lobo em participações relativamente curtas, mas extremamente marcantes. Seu mercenário falastrão, grosseiro e pouco amigável rouba a cena sempre que aparece. O personagem funciona como um ótimo alívio cômico sem jamais comprometer o tom da narrativa.
Visualmente, Supergirl também encontra sua própria identidade. Os cenários espaciais abusam de cores vibrantes, luzes neon e planetas visualmente distintos, criando um universo cósmico cheio de personalidade. É uma estética colorida que conversa com o novo momento da DC sem abrir mão de momentos mais sombrios e dramáticos.
A trilha sonora tem uma presença mais discreta durante boa parte da projeção, mas reserva um dos melhores momentos do filme para seu clímax. Quando a ação explode em tela, acompanhada por uma versão emocionante de "The Middle", interpretada por Kelty Grey, o longa abraça sem medo o clássico recurso da câmera lenta ao som de uma música marcante. É um clichê? Sim. Mas funciona tão bem que se transforma em um dos momentos mais memoráveis da experiência.
Outro mérito do roteiro está no ritmo. Com apenas 1h39 de duração, o filme consegue apresentar sua protagonista, desenvolver seus conflitos, construir a relação entre as personagens centrais e concluir satisfatoriamente as duas linhas narrativas principais. Não há gordura, não há enrolação e, principalmente, não existe a sensação de estar assistindo a uma longa introdução para projetos futuros.
Mesmo fazendo parte da construção do novo universo da DC, Superman aparece apenas quando necessário. Sua presença ajuda a conectar esse mundo compartilhado, mas sem jamais tirar o foco de Kara. O protagonismo pertence integralmente à heroína, como deveria ser.
Também chama atenção a disposição da DC em continuar tratando consequências de forma séria. O filme não evita mortes nem suaviza completamente a violência de suas situações. Existe um equilíbrio interessante entre a estética colorida e divertida da nova fase do estúdio e uma abordagem mais madura dos temas abordados.
Supergirl prova que os maiores heróis não são definidos por seus poderes, mas pelo coração que carregam por trás da capa. Mais do que uma história sobre superpoderes, este é um filme sobre cura. Enquanto tenta salvar Krypto e lidar com as cicatrizes deixadas pela destruição de Krypton, Kara embarca em uma jornada ao lado de uma criança movida pela vingança. O resultado é uma aventura espacial divertida, emocionante e cheia de personalidade, que mostra que o verdadeiro heroísmo não está na força para mudar o mundo, mas na coragem para seguir em frente apesar da dor.



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