Crítica | Coyote vs. Acme
Coyote vs. Acme é uma daquelas produções cuja própria existência parece ter sido escrita por um roteirista de comédia. Começa com a provocação de que é “baseado em uma história real” e, quanto mais se conhece a trajetória do filme, mais a frase deixa de parecer apenas uma piada. Dirigido por Dave Green e escrito por Samy Burch a partir do texto humorístico de Ian Frazier publicado na revista The New Yorker em 1990, o longa transforma uma das perseguições mais simples e duradouras da animação em uma sátira sobre responsabilidade corporativa, fracasso, justiça e sobrevivência. O resultado está longe de ser perfeito, mas possui uma qualidade cada vez mais rara no cinema comercial infantil: parece ter sido concebido por pessoas que realmente gostam dos personagens e entendem que o absurdo não precisa significar falta de inteligência.
A grande sacada está em transformar Wile E. Coyote, tradicionalmente o predador obcecado que fracassa repetidamente em capturar o Papa-Léguas, em vítima de uma estrutura empresarial que talvez esteja deliberadamente conspirando contra ele. Depois de mais uma tentativa desastrosa envolvendo foguetes, ímãs, explosivos e toda sorte de produtos Acme, o Coiote decide processar a companhia. O detalhe mais interessante é que ele continua sem falar, preservando uma característica fundamental dos desenhos clássicos. Como não pode defender sua própria causa verbalmente, encontra em Kevin Avery, interpretado por Will Forte, um advogado de danos pessoais tão fracassado quanto ele, seu representante no mundo dos humanos. A relação entre os dois é o coração do filme.
Will Forte encontra no personagem uma combinação particularmente eficiente de timidez, ingenuidade e desajeitamento. Kevin parece uma versão humana do próprio Coiote, alguém acostumado a perder e que passou a enxergar o fracasso como parte inevitável de sua existência. A diferença é que, enquanto Kevin se deixou definir pelas derrotas, Wile E. permanece obstinadamente incapaz de desistir. Essa aproximação entre os dois personagens é uma das melhores ideias do filme, porque transforma a velha piada do animal que nunca consegue alcançar seu objetivo em uma espécie de parábola sobre perseverança. O Coiote deixa de ser apenas um personagem que sofre acidentes para se tornar uma figura quase heroica em sua incapacidade de aceitar a derrota.
John Cena também funciona muito bem como contraponto. Na pele de Buddy Crane, o advogado da Acme, Cena assume uma presença exageradamente confiante que combina perfeitamente com o universo cartunesco. Sua postura de executivo poderoso contrasta com o caos de Forte, criando uma dinâmica cômica eficiente. Lana Condor, como Paige, completa o trio central e ajuda a investigação a adquirir uma dimensão mais ativa, enquanto os personagens dos Looney Tunes aparecem sem transformar o filme em uma simples sucessão de participações especiais destinadas a provocar aplausos nostálgicos.
É justamente aí que “Coyote vs. Acme” demonstra compreender uma coisa importante sobre adaptações de personagens clássicos. O filme não tenta transformar os Looney Tunes em versões modernas, hiperativas e excessivamente dependentes de referências. Ao contrário, ele preserva boa parte da lógica visual e do humor que tornou esses personagens duradouros. O Coiote continua se comunicando por placas e gestos, os objetos continuam obedecendo a uma física absurda e as consequências das invenções continuam sendo espetacularmente destrutivas. A animação em 2D integrada ao mundo de atores reais também é uma escolha acertada, porque permite que os personagens desenhados mantenham uma aparência próxima de suas origens sem parecerem completamente deslocados no ambiente real.
A abertura, particularmente, parece compreender melhor os Looney Tunes do que muitos projetos recentes da franquia. A perseguição entre Coiote e Papa-Léguas, construída a partir de foguetes, ímãs e mísseis, recupera a lógica elementar do desenho clássico: o prazer não está em descobrir se o Coiote vai conseguir, porque sabemos que ele não conseguirá, mas em observar como exatamente ele fracassará desta vez. O suspense nasce da criatividade da catástrofe. É uma estrutura cômica aparentemente simples, mas extremamente sofisticada em sua construção.
O roteiro de Samy Burch amplia essa lógica para o terreno da comédia judicial. A Acme deixa de ser apenas uma fabricante de produtos absurdos e se transforma em uma gigantesca corporação, capaz de controlar praticamente todos os aspectos do mercado. A sátira empresarial funciona porque não abandona o universo cartunesco. O escritório Avery, Jones e Maltese, por exemplo, homenageia diretamente Tex Avery, Chuck Jones e Michael Maltese, nomes fundamentais para a história da animação. Até os pequenos detalhes carregam referências para quem conhece a tradição dos Looney Tunes.
As piadas são, aliás, o maior trunfo do filme. “Coyote vs. Acme” não depende apenas de grandes cenas de destruição. Há uma quantidade impressionante de pequenas piadas visuais, diálogos absurdos e mensagens escondidas no cenário. Uma das melhores ideias acontece no tribunal, quando um desenhista responsável pelos registros da audiência desenha um sapato-foguete que passa a perseguir o próprio juiz. É uma piada que poderia parecer banal em outro contexto, mas que sintetiza perfeitamente a proposta do filme, aplicar a lógica dos desenhos animados a instituições do mundo real.
O longa também perde parte de sua força quando tenta transformar a investigação corporativa em uma trama convencional de conspiração. Quanto mais o filme se aproxima de uma história tradicional de tribunal e investigação, menos espontâneo parece. Seu melhor material surge quando os realizadores simplesmente permitem que a lógica dos desenhos invada o mundo real. É nesse espaço que surgem as imagens mais inventivas, as melhores piadas e a sensação de que estamos diante de algo genuinamente diferente.
Ainda assim, a transformação do Coiote em uma espécie de símbolo da resistência contra uma corporação gigantesca dá ao filme uma dimensão curiosamente apropriada. Wile E. sempre foi um personagem condenado ao fracasso. Ele compra produtos que não funcionam, elabora planos impossíveis, sofre acidentes terríveis e, apesar de tudo, volta a tentar. Em “Coyote vs. Acme”, essa característica deixa de ser apenas uma engrenagem da comédia e passa a ser o próprio tema da história. O personagem não é admirável porque finalmente consegue capturar o Papa-Léguas, mas porque nunca aceita que o fracasso seja uma razão para parar.



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