crítica | Coração Partido
O cinema adolescente russo não é exatamente algo que chega com frequência por aqui, e talvez esse seja um dos principais atrativos deste filme. A história acompanha Polina, uma adolescente que tenta recomeçar em uma nova cidade e acaba se tornando vítima de bullying. Quando Bars, o aluno mais temido e misterioso da escola, oferece proteção em troca de que ela siga suas regras, começa uma relação que inicialmente parece apenas um jogo de fake dating, mas aos poucos se transforma em algo mais complexo.
E se tem uma coisa que o filme deixa bastante clara desde os primeiros minutos é para quem ele foi feito.
O roteiro aposta em uma fórmula extremamente conhecida dos romances adolescentes: garota vulnerável, garoto misterioso, relacionamento de fachada que começa a ficar real, conflitos familiares, traumas do passado e, claro, o inevitável medo de se apaixonar e acabar com o coração partido. É uma história bastante previsível, mas que consegue prender a atenção justamente por seguir bem essa fórmula.
O bullying, inclusive, é tratado de maneira bastante pesada. Ao longo da trama, o filme também introduz questões como violência doméstica para aprofundar os conflitos dos personagens. Em determinado momento, inclusive, o próprio padrasto de Polina passa a reproduzir esse comportamento abusivo contra ela, ampliando o peso dramático da história.
O problema é que, conforme a trama avança, o roteiro começa a acumular subtramas. São vários elementos conectados para criar novos conflitos, mas alguns deles parecem existir mais para movimentar a história do que para realmente desenvolver os personagens.
O relacionamento entre Polina e Bars funciona relativamente bem. A aproximação acontece aos poucos, e o filme consegue transmitir essa sensação de descoberta e vulnerabilidade. No fundo, por trás de todo o drama adolescente, a história é sobre o medo de se apaixonar, criar vínculos e acabar tendo o coração partido.
A fotografia também merece destaque. Existem momentos visualmente muito bonitos, contrastando com algumas cenas que são consideravelmente menos convincentes e, em certos momentos, chegam a parecer exageradas a ponto de beirar o Bollywood. É um contraste curioso dentro de um filme que, tecnicamente, consegue entregar imagens bastante interessantes.
E existe ainda um elemento que praticamente entrega o público-alvo: K-pop. A presença de músicas do BTS e de outros elementos da cultura pop asiática aproxima bastante o filme da estética dos doramas e provavelmente fará com que quem já gosta desse universo tenha uma conexão maior com a história.
Por ser uma produção russa, também existe um certo interesse em observar uma realidade cultural diferente daquela que estamos acostumados a encontrar nos romances adolescentes americanos. Mesmo utilizando uma fórmula bastante universal, o filme acaba apresentando alguns aspectos de uma sociedade e de uma dinâmica familiar diferentes.
No fim, é um filme que dificilmente vai surpreender quem já conhece esse tipo de história. O roteiro é previsível, algumas soluções são convenientes demais e determinadas cenas poderiam ser melhor executadas. Mas ele sabe exatamente o público que quer atingir.
E talvez essa seja a melhor maneira de defini-lo: não é um filme particularmente inovador, mas é um romance adolescente que entrega aquilo que promete. Tem drama, bullying, romance, conflitos familiares, K-pop e personagens emocionalmente complicados.
Poderia ser melhor? Com certeza. Mas, para quem gosta de romances adolescentes e principalmente de uma pegada próxima aos doramas, provavelmente vai funcionar muito bem.



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