Crítica | Ponto Sem Retorno
“Ponto sem retorno” é um daqueles filmes que parecem ter tudo para funcionar e, ainda assim, terminam deixando a sensação de que faltou alguma coisa. Com Ridley Scott na direção, um elenco repleto de bons atores, um orçamento generoso e a adaptação de um romance elogiado de Peter Heller. No papel, a combinação é difícil de dar errado. A história também parte de uma premissa interessante: nove anos depois de uma pandemia devastar a humanidade, Hig, um piloto e ex-mecânico vivido por Jacob Elordi, sobrevive em um aeroporto abandonado no Colorado ao lado do cachorro Jasper e de Bangley, um sobrevivencialista interpretado por Josh Brolin. Os dois representam respostas opostas ao fim da civilização: enquanto Hig ainda acredita na possibilidade de reconstruir algum tipo de vínculo humano, Bangley acredita que sobreviver exige desconfiança, armas e violência. O problema é que o roteiro de Mark L. Smith apresenta esse conflito, mas nunca consegue desenvolvê-lo com a profundidade necessária.
Scott tenta contar essa história mais pelas imagens do que pelas explicações, e é justamente aí que o filme encontra alguns de seus melhores momentos. Carros abandonados, hospitais devastados, objetos esquecidos e paisagens vazias criam a sensação de um mundo que simplesmente parou de existir. A fotografia de Erik Messerschmidt transforma a solidão em algo quase palpável, e Scott continua demonstrando um domínio impressionante da escala e da atmosfera. Mas toda essa beleza acaba revelando ainda mais o problema do roteiro. Pouco sabemos sobre a pandemia, sobre o que aconteceu com a sociedade ou sobre as consequências daquele colapso. O silêncio poderia ser usado para alimentar o mistério, mas aqui ele parece apenas esconder uma construção de mundo pouco interessada em ir além da superfície. Até a escolha das Dolomitas italianas para representar o Colorado contribui para uma estranha artificialidade: o cenário é magnífico, mas nem sempre parece pertencer àquele universo.
O maior problema, porém, está nos personagens. Hig deveria carregar o peso emocional da história, mas é construído de maneira tão contida que sua dor nunca se transforma em algo realmente sentido pelo espectador. Sabemos que ele perdeu a esposa grávida e que ainda vive preso às lembranças dela, mas o filme oferece tão pouco sobre o relacionamento dos dois que sua ausência acaba parecendo mais uma informação de roteiro do que uma perda concreta. O mesmo acontece com Cima, interpretada por Margaret Qualley. A relação entre os dois deveria representar a possibilidade de reconstruir algum tipo de intimidade depois da tragédia, mas o romance é prejudicado por diálogos artificiais e por uma conexão que o roteiro simplesmente presume que exista. Guy Pearce consegue dar alguma densidade a Pops justamente porque sugere uma história interior que o roteiro não se preocupa em escrever. E Josh Brolin talvez seja quem mais se beneficia do material: sua energia transforma Bangley no personagem mais vivo do filme, especialmente quando ele finalmente pode abandonar a contemplação e partir para a ação.
É justamente quando entra em cena que “Ponto sem retorno” revela outra de suas fragilidades: ele nunca parece decidir que tipo de filme quer ser. Poderia ser um drama sobre o luto, um thriller sobre sobrevivência, uma história de reconstrução social, um romance ou até um filme de ação. Em vez de escolher um caminho, tenta flertar com todos eles e acaba não aprofundando nenhum. A misteriosa transmissão de rádio que leva Hig a procurar uma possível comunidade parece finalmente apontar para uma direção mais interessante. A chegada a novos sobreviventes, a comunidade liderada por Darlene e a ameaça dos chamados ceifadores criam oportunidades para discutir confiança, medo e violência. Mas, sempre que a narrativa parece prestes a transformar essas situações em algo maior, ela recua para acontecimentos previsíveis. Os antagonistas, por exemplo, são pouco mais do que figuras genéricas de um filme pós-apocalíptico, existindo principalmente para que os protagonistas tenham alguém contra quem lutar. Quando alguém morre, quase nunca existe uma sensação verdadeira de perda.
E isso é particularmente frustrante porque o filme tem ideias que poderiam ser muito mais poderosas. A oposição entre Hig e Bangley poderia discutir o medo do diferente, o isolacionismo e a escolha entre reconstruir a sociedade ou proteger-se dela. A comunidade poderia representar a esperança de que ainda exista um futuro coletivo. O relacionamento entre Hig e Cima poderia explorar a possibilidade de amar novamente depois de perder tudo. Até elementos aparentemente banais, como marcas e objetos do mundo anterior, poderiam funcionar como lembranças irônicas de uma civilização desaparecida. Mas quase tudo permanece na superfície. “Ponto sem retorno” parece saber quais perguntas deveria fazer, mas não demonstra o mesmo interesse em explorá-las. É um filme que constantemente apresenta possibilidades e, logo depois, abandona cada uma delas antes que possam ganhar verdadeiro significado.
No fim, talvez essa seja a maior decepção: não estamos diante de um filme sem qualidades, mas de um filme que parece incapaz de transformar suas qualidades em algo memorável. Existem bons atores, belas paisagens, momentos de tensão e algumas sequências de ação competentes. Ridley Scott ainda sabe criar imagens que ficam na memória, mas aqui elas parecem trabalhar mais do que a própria história. No gênero pós-apocalíptico, carros abandonados, aeroportos vazios, sobrevivencialistas paranoicos, comunidades misteriosas e invasores violentos já não são suficientes. É preciso encontrar algo novo nesses elementos — ou, pelo menos, fazer com que eles tenham peso emocional. “Ponto sem retorno” tinha material para ser uma reflexão poderosa sobre o que resta de nós quando tudo aquilo que chamávamos de civilização desaparece. Em vez disso, entrega uma história que passa boa parte do tempo procurando um propósito que nunca encontra. E talvez a ironia mais cruel seja justamente essa: um filme sobre sobreviventes tentando descobrir por que continuar vivendo acaba parecendo uma obra que nunca descobriu por que precisava existir.



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