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Crítica | CARA DE UM, FOCINHO DE OUTRO


Cara de Um, Focinho de Outro é uma animação animalesca e espirituosa que reafirma a vocação da Pixar para unir entretenimento popular, inventividade narrativa e reflexão emocional em uma mesma engrenagem. Dirigido por Daniel Chong e co-escrito por Jesse Andrews, com produção de Pete Docter, o filme parte de uma premissa que poderia soar absurda até mesmo para os padrões do estúdio, mas a desenvolve com uma segurança criativa que transforma o inusitado em encantamento. No centro da história está Mabel Tanaka, uma jovem universitária de 19 anos cujo espírito é transferido para o corpo de um castor robô, numa operação científica que mistura ficção científica, sátira e justiça ambiental. O resultado é uma aventura que dialoga com a tradição do antropomorfismo da Disney e da própria Pixar, ao mesmo tempo em que faz uma divertida paródia de obras como “Avatar”, “O Rei Leão" e "A Origem". 

Desde a infância, Mabel é apresentada como uma garota movida por uma fúria moral diante do sofrimento animal. Há algo de cômico e ao mesmo tempo comovente na cena em que ela tenta libertar os animais de estimação da escola, escondendo-os na mochila como se estivesse realizando uma operação de resgate clandestina. Essa energia rebelde, que na juventude se manifesta em seu visual skatista e no gesso no pulso, encontra contraponto na serenidade da avó, Vovó Tanaka. É ela quem ensina a menina a silenciar, observar e escutar a clareira próxima de casa, espaço que se tornará símbolo de pertencimento e transcendência. A sabedoria da avó introduz um dos temas centrais do filme: a ideia de que a raiva frequentemente nasce do medo e que só se dissolve quando nos reconhecemos como parte de algo maior.

Anos depois, já estudante na Universidade de Beaverton, Mabel enfrenta um novo motivo para sua indignação. O prefeito Jerry Generazzo, vivido por Jon Hamm, planeja destruir a clareira para construir um anel viário. A justificativa é pragmática e típica do discurso político desenvolvimentista: o local não abriga mais vida selvagem, logo pode ser explorado. É nesse ponto que o roteiro costura habilmente o conflito externo com o conflito interno da protagonista. Para impedir legalmente a obra, Mabel precisa provar que o ecossistema ainda é ativo, o que a leva a descobrir os experimentos secretos da professora Samantha Fairfax. A cientista desenvolveu uma tecnologia de transferência de consciência para corpos de animais robóticos, uma invenção que o filme ironiza ao insistir que não tem nada a ver com Avatar, ainda que a comparação seja inevitável.


Ao assumir o controle do castor robô, Mabel adentra um universo que combina a ternura típica da Pixar com um humor surpreendentemente ácido. Como castor, ela compreende a linguagem de todos os animais e passa a interagir com George, o autoproclamado rei dos mamíferos, vivido por Bobby Moynihan. George é um idealista tolerante, quase um guru da convivência ecológica, que acredita nas “regras do lago” como fundamento de uma ética comunitária. Entre elas estão “não seja um estranho” e “estamos todos juntos nessa”, princípios que funcionam tanto como piada quanto como proposta moral. O contraste entre o pragmatismo impaciente de Mabel e o otimismo quase ingênuo de George gera algumas das melhores cenas do filme, especialmente quando a jovem se vê obrigada a confrontar a realidade de que predadores comem presas e que o ciclo da vida não é uma metáfora inofensiva.

A entrada do conselho animal amplia o escopo narrativo e mergulha o filme numa sátira política de contornos deliciosamente caóticos. A rainha dos insetos, vivida por Meryl Streep, surge como uma líder fria e calculista, enquanto seu filho Titus, vivido por Dave Franco, adiciona inquietação e ambiguidade ao jogo de poder. A sequência em que pássaros transportam um tubarão branco chamado Diane pela estrada, transformando-o num improvável carro esportivo com dentes, sintetiza o espírito anárquico da obra. O absurdo não é gratuito; ele serve para desmontar hierarquias e expor o quanto as estruturas de poder, humanas ou animais, podem ser ridiculamente frágeis.

Visualmente, “Cara de Um, Focinho de Outro” exibe a excelência técnica que se espera da Pixar. As texturas da água, das folhas e da madeira da represa dos castores são apresentadas com um realismo tátil impressionante. A clareira é filmada como um santuário vivo, capaz de transmitir paz e melancolia ao mesmo tempo. Esse cuidado estético reforça a dimensão emocional da narrativa, especialmente quando o luto de Mabel pela avó ressurge em pequenos detalhes, como o destino simbólico de uma peça de roupa que carrega memória e afeto. A natureza não é apenas cenário, mas personagem ativa que molda comportamentos e decisões.


O filme também acerta ao não transformar Jerry em um vilão unidimensional. Inicialmente apresentado como um político arrogante e hipócrita, ele ganha nuances à medida que a trama avança. O roteiro sugere que até mesmo aqueles que defendem projetos destrutivos podem acreditar estar agindo em nome da comunidade. Essa ambiguidade enriquece o debate sobre desenvolvimento, progresso e responsabilidade coletiva, evitando o maniqueísmo simplista que poderia reduzir a narrativa a um panfleto ecológico.

No entanto, o maior mérito do longa reside na exploração do conflito interno de Mabel. Sua raiva, embora compreensível, é mostrada como força ambivalente. Ela impulsiona a ação, mas também obscurece a empatia. Ao viver como castor e experimentar a dinâmica complexa da comunidade animal, Mabel aprende que salvar a clareira exige mais do que indignação. Exige diálogo, colaboração e reconhecimento das diferenças. O filme insiste que a verdadeira transformação não está na tecnologia que permite transferir consciências, mas na capacidade de ampliar o significado de nós.

Cara de Um, Focinho de Outro talvez não alcance o estatuto mítico de clássicos como “Toy Story" ou "Divertida Mente", mas reafirma a vitalidade criativa da Pixar quando o estúdio se permite ousar. É uma obra que combina sátira, emoção e um grande espetáculo visual com uma leveza rara. Ao final, quando humanos e animais precisam decidir se conseguem agir como parte de um mesmo sistema interdependente, o filme oferece uma mensagem que soa simples, mas nunca simplista. Em tempos marcados por divisões entre nós e eles, a animação propõe que a sobrevivência coletiva depende da coragem de reconhecer que todos habitamos a mesma clareira, literal e simbolicamente.

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