Header Ads

Crítica | Velhos Bandidos


“Velhos Bandidos” se sustenta em um paradoxo curioso que o próprio filme parece abraçar sem constrangimento: ao mesmo tempo em que se constrói sobre uma premissa clássica de filmes de assalto, ele pouco se interessa em desenvolver a engrenagem dramática que tradicionalmente move esse tipo de narrativa. O longa dirigido por Cláudio Torres prefere deslocar o foco para aquilo que, de fato, lhe dá vida, que é o encontro entre gerações de atores super carismáticos, capazes de transformar situações banais em momentos de genuína presença cênica. Nesse sentido, o filme encontra sua principal força na dupla central formada por Fernanda Montenegro e Ary Fontoura, cuja química transcende o texto e cria uma espécie de cumplicidade que não depende da lógica do roteiro para funcionar.

Há algo de quase contemplativo na maneira como “Velhos Bandidos” observa seus personagens. O assalto, que deveria ser o motor da trama, funciona mais como um pano de fundo, um pretexto para colocar essas figuras em movimento. O filme parece respirar no tempo de seus intérpretes, permitindo que gestos, pausas e olhares ganhem mais relevância do que qualquer reviravolta narrativa. Essa escolha, embora limitadora do ponto de vista dramático, revela uma consciência estética interessante, pois transforma o longa em uma comédia de convivência, quase um registro afetivo de encontros.


Ao lado dos veteranos, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta assumem o papel de contraponto geracional, trazendo energia e leveza à narrativa. Existe um jogo interessante entre experiência e impulsividade, ainda que o roteiro não explore esse conflito com a profundidade que poderia. Já Lázaro Ramos, como o investigador que persegue o grupo, encontra um equilíbrio eficiente entre humor e seriedade, funcionando como uma espécie de eixo de estabilidade em meio ao tom irregular do filme.

No entanto, é justamente no campo do roteiro que o filme revela suas maiores fragilidades. As situações são construídas com uma lógica frouxa, marcada por incongruências e soluções fáceis que comprometem qualquer senso de verossimilhança. O universo apresentado assume uma artificialidade evidente, desde os cenários que parecem cenográficos até a construção de personagens reduzidos a arquétipos. Em muitos momentos, o filme parece operar sob a lógica de um entretenimento simplificado, moldado para uma atenção dispersa, onde tudo precisa ser explicado, repetido e mastigado. 

Ainda assim, há uma escolha consciente em não levar essa artificialidade como um problema, mas como parte do próprio jogo. “Velhos Bandidos” flerta constantemente com a paródia, posicionando-se entre a homenagem e a caricatura dos filmes de assalto. O resultado é um tom irregular, que ora diverte pela leveza e pelo absurdo, ora incomoda pela falta de rigor narrativo. A direção de Cláudio Torres demonstra domínio do ritmo e da encenação, utilizando recursos visuais e sonoros de maneira funcional, mas sempre subordinados às performances. Há um cuidado claro em não deixar que a forma se sobreponha aos atores, o que reforça a centralidade do elenco como principal atrativo. 


Outro ponto que atravessa o filme é sua tentativa de construir uma reflexão sobre o envelhecimento. A semiótica de colocar personagens idosos no centro de uma narrativa de ação e crime carrega um potencial simbólico interessante, sugerindo uma valorização da vitalidade e da autonomia na terceira idade. No entanto, essa proposta é tratada de forma ambígua, alternando entre uma celebração sincera e uma abordagem que, por vezes, resvala em estereótipos ou humor simplista. O filme parece indeciso entre homenagear seus personagens ou transformá-los em figuras caricaturais. 

“Velhos Bandidos” funciona menos como uma obra narrativa coesa e mais como uma experiência de presença. Seu valor está no prazer de ver grandes nomes do cinema brasileiro dividindo a tela, em um encontro que carrega tanto peso histórico quanto leveza emocional. É um filme que não pretende reinventar o gênero nem oferecer complexidade dramática, mas que encontra algum sentido justamente na simplicidade, na insistência desses personagens em continuar, em existir, em ocupar espaço. Entre falhas evidentes e acertos afetivos, o longa se estabelece como um entretenimento irregular, porém simpático, sustentado quase inteiramente pelo carisma de seu elenco. 

Nenhum comentário