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Crítica | Eles Vão Te Matar


“Eles Vão Te Matar” é o tipo de obra que parece nascer de um impulso cinéfilo intenso, quase obsessivo, mas que se perde ao tentar equilibrar reverência e identidade própria. Dirigido por Kirill Sokolov, o filme assume desde os primeiros minutos suas influências mais evidentes, evocando diretamente o espírito estilizado de Kill Bill a la possessão demoníaca. Essa combinação, que à primeira vista soa sedutora, rapidamente revela seu principal problema, uma dependência excessiva de referências que, em vez de enriquecer a experiência, acaba diluindo qualquer traço de personalidade autoral.

A protagonista interpretada por Zazie Beetz é, sem dúvida, o coração pulsante do filme. Sua Asia Reaves surge como uma heroína real e emocionalmente comprometida, capaz de sustentar tanto a brutalidade das sequências de ação quanto os resquícios de humanidade que o roteiro tenta, ainda que timidamente, desenvolver. Há uma entrega notável na performance, seja ao enfrentar hordas de inimigos com um machado em chamas, seja ao carregar o trauma que motiva sua jornada. Beetz demonstra carisma e presença suficientes para liderar uma possível franquia, mesmo quando o material ao seu redor não corresponde à sua intensidade.


O ponto de partida é simples e eficaz, uma mulher entra em um hotel carregado de simbolismos demoníacos e descobre que seus habitantes fazem parte de um culto que desafia a morte. O cenário do Virgil, com sua atmosfera opressiva e iconografia infernal, estabelece um espaço promissor para um jogo de sobrevivência claustrofóbico. No entanto, essa promessa é rapidamente sabotada por uma escolha narrativa que compromete toda a tensão do filme, a imortalidade dos antagonistas. Ao transformar a violência em algo sem consequências permanentes, o longa esvazia o impacto de cada confronto, convertendo o que deveria ser impactante em algo repetitivo e, por vezes, entorpecente.

Visualmente, Sokolov demonstra energia e inventividade. Há momentos em que a câmera parece dançar com os personagens, explorando corredores, espaços confinados e enquadramentos que remetem a painéis de histórias em quadrinhos. Sequências específicas alcançam um nível de dinamismo impressionante, lembrando tanto a coreografia precisa de Oldboy quanto a estilização exagerada do cinema de ação contemporâneo. Ainda assim, essas cenas frequentemente existem de forma isolada, desconectadas de uma progressão narrativa consistente. O filme se transforma em uma coleção de ideias visuais interessantes, mas sem um eixo dramático que lhes dê sentido. 

A estrutura narrativa sofre com essa fragmentação. A geografia do hotel nunca é claramente estabelecida, os objetivos da protagonista se tornam difusos e os antagonistas carecem de desenvolvimento. Mesmo tentativas de inserir temas mais amplos, como desigualdade social ou exploração de classes, aparecem de forma superficial, quase como um adorno obrigatório que não se integra ao restante da obra. O resultado é um filme que flerta com a crítica social, mas não se compromete com ela, preferindo retornar rapidamente à carnificina estilizada.


Ainda assim, há um tipo específico de prazer que “Eles Vão Te Matar” consegue oferecer. Quando abraça completamente seu absurdo, o filme encontra momentos de diversão genuína, especialmente para um público disposto a se deixar levar pelo excesso. Em uma sala cheia, com espectadores reagindo coletivamente às cenas mais extravagantes, essa experiência tende a ganhar força, transformando suas limitações em parte do espetáculo. É um cinema que funciona mais pela energia do momento do que pela construção cuidadosa.  

O longa se estabelece como uma obra profundamente irregular. Há talento evidente na direção e uma performance central interessante, mas falta coesão, propósito e, sobretudo, identidade. Entre homenagens, exageros e ideias não totalmente desenvolvidas, “Eles Vão Te Matar” acaba sendo menos do que a soma de suas partes. É um filme que grita por impacto, mas que, ao esvaziar as consequências de sua própria violência, termina deixando uma sensação curiosamente morna, como um espetáculo barulhento que ecoa referências maiores sem jamais alcançá-las.

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