Crítica | Uma segunda chance
Uma segunda chance, adaptação do romance de Colleen Hoover dirigida por Vanessa Caswill, chega aos cinemas cercada por um contexto curioso. Depois do sucesso inesperado de "É Assim Que Acaba” Hollywood parece empenhada em transformar os livros da autora em uma nova mina de melodramas românticos para o grande público. O risco evidente dessa estratégia é a saturação de fórmulas sentimentais e tramas previsíveis. Ainda assim, dentro desse cenário um tanto cético, “Uma Segunda Chance” revela algo surpreendente. Mesmo carregando os clichês típicos desse tipo de narrativa, o filme encontra momentos de sinceridade emocional que o tornam mais eficaz do que se poderia imaginar.
A história acompanha Kenna Rowan, interpretada por Maika Monroe, uma jovem que retorna à pequena cidade de Laramie após cumprir anos de prisão por homicídio culposo em um acidente de carro que matou seu namorado Scotty. Ao sair da prisão, ela descobre que perdeu completamente o direito de conviver com a filha que nasceu durante sua pena. A menina foi criada pelos pais de Scotty, que enxergam Kenna apenas como a responsável pela morte do filho. Essa premissa poderia facilmente descambar para o melodrama excessivo, mas o filme opta por uma abordagem relativamente contida. O drama não surge de grandes reviravoltas narrativas, e sim da tentativa silenciosa de uma mulher de reconstruir a própria vida em um lugar onde praticamente todos a odeiam.
Nesse processo, surge Ledger, interpretado por Tyriq Withers, o melhor amigo de Scotty. Ele é um ex jogador da NFL que voltou para a cidade natal após uma lesão e que agora administra um bar local. Ledger também se tornou uma figura paterna para a filha de Scotty e Kenna, o que transforma o encontro entre ele e a protagonista em uma situação emocionalmente delicada desde o início. A atração entre os dois é imediata e inevitável, embora o filme saiba que essa premissa exige uma boa dose de suspensão da descrença. Afinal, é difícil aceitar que ele não reconheça imediatamente a mulher envolvida na morte do melhor amigo. O roteiro tenta justificar esse detalhe de maneira pouco convincente, mas rapidamente abandona a explicação e segue adiante.
O que sustenta o filme é menos a plausibilidade do enredo e mais a intensidade emocional dos personagens. Monroe constrói Kenna como uma figura melancólica e silenciosa, alguém que carrega culpa e esperança em proporções iguais. Sua atuação evita transformar a personagem em mártir ou vítima absoluta. Já Withers apresenta Ledger como um homem dividido entre lealdade, luto e desejo, um gigante gentil que tenta reconciliar a memória do amigo com a percepção de que a mulher que ele aprendeu a odiar talvez não seja o monstro que imaginava. A química entre os dois não é explosiva, mas funciona como motor dramático de uma história construída sobre feridas abertas.
Visualmente, o filme se beneficia bastante do cenário natural que representa o interior do Wyoming. As paisagens montanhosas fotografadas oferecem uma atmosfera contemplativa que combina com o ritmo lento da narrativa. Há também um uso cuidadoso da trilha sonora, que inclui nomes como Kacey Musgraves e Waxahatchee. Essas músicas ajudam a criar um clima de nostalgia rural que reforça a sensação de isolamento emocional da protagonista.
Nem tudo funciona perfeitamente. A direção de Caswill às vezes recorre a escolhas estilísticas um pouco excessivas, como sequências em câmera lenta que lembram videoclipes e interrompem o fluxo natural da narrativa. O recurso das cartas que Kenna escreve para o namorado morto também pode soar artificial, especialmente quando usado como narração explicativa para sentimentos que já estavam claros na atuação. Em alguns momentos, o filme parece desconfiar da capacidade do público de compreender suas emoções sem ajuda.
Apesar dessas fragilidades, “Uma Segunda Chance” consegue evitar o tipo de manipulação sentimental que costuma marcar muitas adaptações de romances populares. O drama se desenrola de forma relativamente discreta, concentrando-se na jornada de redenção de Kenna e no desejo quase universal de recomeçar após uma tragédia. O confronto inevitável com os avós da criança, interpretados por Lauren Graham e Bradley Whitford, oferece alguns dos momentos mais dolorosos do filme, pois revela que todos os personagens estão presos ao mesmo luto, apenas expressando essa dor de maneiras diferentes.



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