Header Ads

Crítica | O Frio Da Morte


O frio da morte é um suspense que encontra sua força na combinação entre paisagem inóspita, violência e a presença impactante de Emma Thompson em um papel bem inesperado. Ambientado no coração gelado de Minnesota, o filme dirigido por Brian Kirk parte de uma premissa simples e quase clássica: “uma viúva viaja até um lago remoto para espalhar as cinzas do marido e acaba se envolvendo em uma trama de sequestro e muita brutalidade”. O que poderia soar como mais um thriller de sobrevivência ganha densidade graças ao carisma da protagonista e à maneira como o roteiro transforma sua experiência de vida em arma.

Thompson interpreta Barb, uma mulher na casa dos sessenta anos que administrava com o marido uma loja de artigos de pesca e que domina como poucos a arte da pesca no gelo. Logo nas primeiras sequências, o filme estabelece sua competência prática e sua intimidade com o ambiente hostil. Ela sabe montar abrigo, lidar com o frio extremo, manusear armas e improvisar diante do perigo. Quando, perdida na neve, pede informações em uma cabana isolada e descobre indícios de um crime, sua reação não é a de pânico absoluto, mas de observação atenta. Ao perceber que uma adolescente está mantida em cativeiro por um casal bem perturbador, Barb assume uma postura ativa que conduz a narrativa para um embate físico e psicológico no gelo. 


Há algo deliciosamente anacrônico no modo como o filme constrói essa heroína. Em vez de apostar em juventude ou força bruta, “O Frio da Morte” valoriza a experiência acumulada e a resiliência. Barb não é uma super heroína caricatural, mas uma mulher que viveu, amou e sofreu, e que carrega no corpo e na memória as ferramentas necessárias para reagir. Quando leva um tiro no braço e precisa costurar o próprio ferimento em uma cabana abandonada com itens de sua caixa de pesca, o filme atinge um de seus momentos mais tensos e fascinantes. A dor é concreta, a cena é crua, mas também reafirma a autonomia da personagem. 

O embate com os antagonistas interpretados por Marc Menchaca e Judy Greer adiciona camadas interessantes, ainda que nem todas sejam plenamente exploradas. Menchaca encarna um homem ambíguo, dividido entre devoção conjugal e uma cumplicidade criminosa, enquanto Greer surge como a mente por trás do plano, uma figura desequilibrada cuja motivação é apenas parcialmente desenvolvida. Existe ali material para uma análise mais profunda sobre dependência, desespero e distorção moral, mas o roteiro prefere avançar rumo à ação, sacrificando algumas possibilidades temáticas no caminho. 

A direção de Brian Kirk valoriza o silêncio e o isolamento. A vastidão branca da paisagem, captada com elegância por Christopher Ross, reforça a sensação de vulnerabilidade. Cada som se destaca com nitidez inquietante, o ranger das botas na neve, o estalar de galhos na floresta, a respiração ofegante em meio ao frio cortante. A trilha de Volker Bertelmann contribui para essa atmosfera com sintetizadores discretos que evoluem para cordas tensas, intensificando o suspense sem recorrer a excessos. 

Nem tudo funciona com a mesma precisão. O uso recorrente de flashbacks para contextualizar o relacionamento de Barb com o marido, embora emocionalmente compreensível, interrompe o ritmo e enfraquece a tensão crescente da trama principal. Muitas dessas memórias poderiam ser sugeridas apenas pela expressão de Thompson, cuja atuação silenciosa é suficientemente eloquente para transmitir saudade, ternura e luto. Além disso, o roteiro apresenta algumas conveniências narrativas e decisões questionáveis que fragilizam a lógica interna da história, criando pequenos ruídos em um conjunto que busca ser coeso. 

Ainda assim, o saldo é amplamente positivo. O frio da morte se sustenta na figura de uma protagonista raramente vista nesse tipo de narrativa. Thompson equilibra doçura e firmeza com naturalidade, criando uma personagem que inspira empatia sem jamais parecer ingênua. Há um humor pontual, há sentimentalismo, há violência, mas tudo gira em torno dessa mulher que transforma sua vida comum em uma força extraordinária diante do perigo. O clímax explosivo no lago congelado entrega a fisicalidade prometida e oferece um desfecho que, mesmo imperfeito, é genuinamente impactante.

Nenhum comentário