Crítica | Morra, Amor
“Morra, Amor” é um mergulho brutal na psique de uma mulher à beira da implosão, uma obra que confirma Lynne Ramsay como uma das poucas cineastas contemporâneas dispostas a encarar a escuridão feminina sem filtros, pudores ou discursos conciliadores. Adaptado do romance de Ariana Harwicz, o filme rejeita qualquer tentativa de diagnóstico direto e aposta radicalmente na experiência subjetiva e fragmentada de Grace, vivida por uma Jennifer Lawrence em seu trabalho mais cru e inquietante desde “O lado bom da vida”. Trata-se de um filme que não tenta explicar, justificar ou interpretar sua protagonista, mas sim expor o que há de mais irrepresentável em sua relação com a maternidade, com o corpo e com o horror silencioso da domesticidade. E justamente por não oferecer um caminho seguro para o espectador, “Morra, Amor” é tão perturbado.
Logo nas cenas iniciais, Ramsay deixa claro que não pretende tratar a depressão pós parto com o verniz de compreensão terapêutica que costuma dominar representações midiáticas da doença. A diretora rejeita a ideia de que o sofrimento psicológico feminino possa ser contado em termos pedagógicos ou clínicos e simplesmente desaba sobre o público a força bruta da experiência de Grace. Não existem explicações. Não existe contexto que justifique. O filme se instala no desconforto e na contradição. A abertura, em que Grace rasteja na grama com uma faca enquanto observa o próprio bebê ao longe, estabelece uma fronteira que poucos filmes ousam cruzar. A maternidade, aqui, não existe como uma narrativa de amor incondicional ou sacrifício sublime. Existe como um território de terror existencial, feito de impulsos, cansaço crônico, culpa e um desejo abissal de fuga.
Jennifer Lawrence abraça essa visão com uma entrega física e emocional que chega a ser desconcertante. A atriz sempre foi reconhecida por sua presença corpórea forte, mas em “Morra, Amor” essa fisicalidade é radicalizada até a decomposição. Lawrence é pura matéria instável. Seu corpo parece estar se desfazendo, misturando suor, terra, lágrimas, bebidas e sujeira numa performance que lembra Catherine Deneuve em “Repulsa ao amor”. A cada cena, a atriz caminha na fronteira entre lucidez e colapso, criando uma figura simultaneamente ameaçadora e vulnerável, cuja dor é tão intensa que se torna irrepresentável. Lawrence encontra nuances também nas explosões de humor ácido, elemento essencial para que o público compreenda que a devastação de Grace não é apenas sofrimento, mas também uma resistência raivosa contra a narrativa social que insiste em obrigá-la a amar cada instante da maternidade.
Ramsay reforça essa abordagem com uma construção estética que transforma o cotidiano rural de Grace e Jackson em um pesadelo alucinatório. A câmera de Seamus McGarvey registra a paisagem com um brilho noturno estranho, prateado e inquietante. A aparente tranquilidade da vida no campo é sistematicamente corroída pela iluminação, pela repetição sonora, pelas cenas em que objetos e espaços se tornam hostis. O lar, que deveria ser um espaço de cuidado, se transforma em cárcere e labirinto. A trilha sonora abusivamente presente, pulsante e caótica cria a sensação de que Grace está sempre à beira de um ataque. O filme se recusa a oferecer frescor ou descanso ao espectador. Tudo é saturado, opressivo, quebrado, refletindo uma protagonista que está prestes a estilhaçar qualquer pacto de convivência.
Ainda assim, se “Morra, Amor” tem uma protagonista memorável, seu entorno nem sempre acompanha sua profundidade. Jackson, interpretado por Robert Pattinson, é concebido como uma figura quase caricatural de insensibilidade masculina, o que limita seu impacto dramático. A escolha de Ramsay parece deliberada. Jackson existe menos como personagem e mais como parte do sistema que colapsa sobre Grace. No entanto, a superficialidade da construção do casal provoca um efeito secundário indesejado. Em vários momentos, o filme parece menos interessado em investigar a maternidade contemporânea e mais comprometido em acumular episódios de choque, excentricidade e violência performática. Há cenas brilhantes, mas também momentos em que a estilização começa a competir com a densidade humana que o tema exige.
O trabalho de Sissy Spacek como Pam, por outro lado, é um dos mais fortes elementos da narrativa paralela. Ao apresentar uma mulher mais velha igualmente à deriva, também envolvida em comportamentos noturnos enigmáticos e perigosos, o filme amplia sua discussão sobre mulheres quebradas que não encontram lugar dentro das normas sociais. Spacek é assombrosa, cria ressonâncias profundas com a trajetória de Grace e sugere que o ciclo de violência emocional e descontrole feminino atravessa gerações e formas de vida.
O problema central de “Morra, Amor” talvez esteja no fato de que Ramsay parece mais seduzida pelo espetáculo da desintegração do que pela introspecção da dor. O filme transborda energia visual, textura e intensidade, mas carece de articulação emocional em alguns trechos. Não porque seja frio, mas porque é tão obcecado pela representação do colapso que, por vezes, perde a oportunidade de explorar camadas que dariam profundidade ao desespero de Grace. Há um excesso de cenas estilizadas que se acumulam sem avançar o arco dramático. O resultado é que a doença mental da protagonista às vezes se transforma em um dispositivo estético mais do que em uma experiência humana compreensível. O espectador é convidado a testemunhar, mas não a penetrar verdadeiramente no que se passa dentro dela.
O último ato, marcado pela internação de Grace e pela tentativa fracassada de retorno à normalidade, expõe essa ambiguidade. O filme nos promete uma revelação e nos entrega uma repetição de sua própria lógica caótica. Grace retorna para casa fingindo alegria e docilidade, mas sabemos que tudo vai explodir. Quando a explosão finalmente ocorre, ela é cinematograficamente poderosa, porém emocionalmente previsível. Ramsay fecha o filme com imagens incandescentes, mas o efeito final é paradoxal. Ao mesmo tempo em que o espectador sente a força avassaladora da protagonista, também sente que faltou algo mais do que violência, fúria e colapso. Faltou talvez um olhar mais íntimo para o abismo que ela carrega.
“Morra, Amor” é um filme imperfeito, mas profundamente marcante. Ele testa os limites da representação da loucura feminina e da maternidade em crise. Possui uma intensidade rara, uma estética hipnotizante e uma performance marcante de Jennifer Lawrence, que se entrega ao papel com uma coragem quase suicida. É um filme que incomoda, irrita, fascina e esgota. Não oferece respostas e tampouco pretende oferecer. Sua força está justamente na recusa em domesticar o horror. Ao final, Ramsay cria uma obra que provoca mais perguntas do que conclusões e que reafirma o cinema como espaço para aquilo que não pode ser dito, apenas sentido.



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